Botei luto na cerca dos currais
Quando vi meu boi manso ser vendido
Para ser na tarimba dividido
Como fazem com muitos animais
Assisti suas dores cruciais
Vi um rio de sangue pelo chão
Como quem exigia punição
Pelo crime que eu tinha praticado
Escutei as pancadas do machado
No boi manso da minha estimação
Ele foi referência do meu gado
E eu vendi pra matar sem precisão
Quando via o marchante ele berrava
Como quem tinha medo de morrer
Ou estava querendo me dizer
Que o momento do fim se aproximava
Não sabia falar, mas me olhava
Como quem me pedia proteção
Nesta hora eu senti meu coração
Pelas mesmas pancadas machucado
Escutei as pancadas do machado
No boi manso da minha estimação
Ele foi referência do meu gado
E eu vendi pra matar sem precisão
Nunca vi um boi manso igual àquele
Tudo quanto mandasse ele fazia
Só não era cristão, mas entendia
Tudo quanto um cristão dissesse a ele
Quem passar na fazenda que foi dele
Vê pedaços da canga pelo chão
A forquilha escorada num mourão
E o carro de boi abandonado
Escutei as pancadas do machado
No boi manso da minha estimação
Ele foi referência do meu gado
E eu vendi pra matar sem precisão
Atendia aos mandados do carreiro
Fosse em carro de boi ou na carroça
Arrastava o arado em minha roça
Revirando baixio e tabuleiro
Toda vez que eu chegava no terreiro
Ele vinha lamber a minha mão
Me esperava na frente do portão
Como um pai quando espera um filho amado
Escutei as pancadas do machado
No boi manso da minha estimação
Ele foi referência do meu gado
E eu vendi pra matar sem precisão
Avistando o portão do matadouro
Ele olhava pra mim naquele instante
Como quem tinha medo do marchante
Que batia sem pena no seu couro
Aumentei o volume do meu choro
O remorso pesou no coração
Eu nem sei meu Jesus se tem perdão
Para um ser que comete este pecado
Escutei as pancadas do machado
No boi manso da minha estimação
Ele foi referência do meu gado
E eu vendi pra matar sem precisão
Eu vendi meu boi manso sem saber
Que ele ia pras mãos dos matadores
Quando ele morreu eu senti dores
Que também andei perto de morrer
Quando alguém perguntou: É pra vender?
Eu devia ter dito: Vendo não!
Ele agora vai ter água e ração
Pelo resto da vida aposentado
Escutei as pancadas do machado
No boi manso da minha estimação
Ele foi referência do meu gado
E eu vendi pra matar sem precisão
Ô, gado manso