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Ainda é Assim

Volmir Coelho

Hoje, invadiram o meu corpo, hoje, eu fui estuprada
Hoje, invadiram o meu corpo, e eu não pude fazer nada
Quando invadiram o meu corpo, não olhei pro agressor
Nem sequer vi o seu rosto, mas sei, sei quem me estuprou

Foi você que de mim abusou e pensa que é machão
E acha que mulher diz sim, mesmo quando diz não
Tu foste meu agressor, meu amigo, meu pai, meu irmão
Que acham que mulher sozinha sempre está à disposição

Quem estupra é o padre, que fala em nome de Deus
E me pede que eu cale e perdoe o que me ocorreu
Quem me estupra é a polícia, que diz que a culpa é minha
E, depois da perícia, perdoa a faca e culpa a bainha

Hoje, invadiram o meu corpo, hoje, eu fui estuprada
Hoje eu fui estuprada, subiram em cima de mim
Hoje, invadiram o meu corpo, e eu não pude fazer nada
Tanta coisa precisa mudar, mas hoje ainda é assim

Quem estupra é a TV que nos mostra todo dia
Propaganda pra se entender que mulher é mercadoria
E mesmo tu, querida mãe, que defendes o preconceito
Por achar que homem é homem e, por isso, tem o direito

Também você que assiste a programas de falso humor
Que, nas piadas, insiste em rir deste horror
Também você que diz que sou vadia e que mereço ser estuprada
E que mulher não poderia ir sozinha pra balada

Composição: Volmir Coelho, Carlos Roberto Hahn