Da minha janela eu vejo as luzes acenderem
Como estrelas presas num pequeno céu de concreto
O jardim parece sempre tão perfeito
Sorrisos pendurados na varanda como retratos
A mãe rega flores que já não têm primavera
O pai retorna com o rosto de quem venceu o dia
As crianças correm como pássaros livres
E a noite veste tudo com aparência de poesia
Mas as cortinas conhecem segredos antigos
As paredes guardam marcas que ninguém pode tocar
Porque existem casas que são castelos por fora
E labirintos quando as portas vão se fechar
A mesa está posta, mas ninguém realmente se encontra
Cada olhar é um barco perdido no próprio mar
As palavras são espinhos escondidos em rosas
E os silêncios aprenderam a gritar
Ele dorme ao lado dela como dois continentes distantes
Ela carrega tempestades atrás do olhar
As crianças aprenderam cedo o idioma das ausências
E desenham Sol para não chorar
No corredor existe um retrato esquecido
De alguém que partiu sem se despedir
Desde então aquela casa vive de inverno
Mesmo quando tenta sorrir
Às vezes vejo sombras cruzando as janelas
Como atores trocando máscaras após o espetáculo
Cada quarto é uma ilha cercada de pensamentos
Cada coração, um relógio quebrado
Há desconfianças escondidas nos armários
Promessas caídas entre livros e lençóis
Há batalhas travadas sem qualquer testemunha
E noites que parecem não terminar depois do Sol
Então percebo que ninguém é realmente visto
Todos carregam jardins que deixaram de florescer
E algumas pessoas aprendem a sobreviver sorrindo
Enquanto algo dentro delas insiste em morrer
A casa do lado continua iluminada
E quem passa diz: Que família tão feliz
Mas eu vejo pelas frestas de suas janelas
Que existem lágrimas onde ninguém quis
Porque certas dores usam roupas elegantes
E certas tristezas sabem se esconder
Há corações vivendo atrás de portas fechadas
Pedindo em silêncio para alguém perceber
E eu permaneço diante da minha janela
Observando a noite lentamente cair
Pensando quantas casas existem no mundo
Parecendo vivas
Enquanto tentam apenas não ruir