Segundo ato, volta a vida desentendida
De jaleco e carimbo
Sim, vai ter que chamar de doutora
Mesmo sem doutorado
O que pensando bem, podia ser pior
Podia ser um advogado
Mas é só a vida
Pronta pra deixar todo mundo
Bastante medicado
Sempre medicado
Rinite, catarro, olho ardendo
Mundo em combustão
Rinosoro na pia
Loratadina na mão
Aspirina pra cabeça
Dipirona pra febre
Antiofídico pro veneno
Esparadrapo na ferida
Se o corte for pequeno
Se o peito fecha, abre-se a conta
E não pergunta se tem dó
Sofrer aqui é serviço
E pagar é o velho nó
A farmácia é catedral de neon
E moça gentil
Tudo em quinze vezes
Tudo urgente, tudo febril
Tem pomada, tem spray
Tem adesivo, tem sorriso
E a regra é simples
Quem aguenta, ok
Quem não, se ferra no improviso
E sabe o mais legal
Que aumenta todo ano?
Num dia tem algo pro pau subir
No outro pra meter
Tem vacina na hora
Tem dica do produto do dia
Compre um valium
E leve três vitaminas e um engov
Tudo parece perigos
Porém só até que você prove
E perceba
Que o mundo não corrige
O mundo só precifica
Põe etiqueta na ruína
E vende plástico pra pica
Pra cada queda, um milagre
Pra cada crise uma embalagem
E quem não compra o remédio
Vive como um transgressor
Fica sempre à margem
Por que se dopar
Entupir
Chafurdar
Ter receita
Prescrição
Nunca é visto mal
E sim como alguém adequado
Como um ser humano funcional
Que ao ver sumir o eventual
Se conforma até empenhado
Em não achar isso mal
Afinal
Está medicado
E isso lhe permite cantar com a gente
Já tomou seu remedinho, seu verme?
Já engoliu sua rotina torta?
Clonazepam pra não cair
Sertralina pra sorrir e seguir
Venvanse pra virar engrenagem
Rivotril pra não quebrar
No meio da viagem
E se a noite vem mordendo
A nuca sem parar
Tem Dramin, tem farsa
Tem química pra maquiar
A gente entra no clube
Pela porta da dor
Uns com convênio
Outros com credor
Tem Monjauro na vitrine
Pele fina, copo gelado
E tem fome com pino de vinte
Corpo seco e olhar cansado
Ozempic de um lado
Jejum do outro
Pode até por crack
Na mesma fotografia
Um chama de saúde
O outro chama de tentar de noite
De tarde, todo dia
Já que todo mundo quer caber
No espelho no elevador
Mas só alguns compram a saída
Com o cartão do doutor
(SIm, doutor, sempre doutor)
Se a cabeça explode
O crachá já dá o nome
TAG, TDAH, burnout
E o resto o mercado some
Frontal pro expediente
Alprazolam pro jantar
Propranolol pra não tremer
Vuando vierem te comprar
A lágrima já vem com senha
O laudo já vem com preço
E o vexame vira método
Protocolo, endereço
Se é pobre, é fase, frescura
Falta de vontade
Se é rico, é cuidado
Rotina, qualidade
A mesma dor, dois balcões
Duas luzes, dois sermões
Um ganha docinho
E água com gelo
O outro ganha olhar feio
E observações
Já tomou seu remedinho
Essa bela desgraça?
Já assinou a própria prisão?
Neosaldina na testa
Novalgina na festa
Omeprazol pra suportar
Fluoxetina pra rir
Sem ter vontade de falar
E se o mundo te deixa podre
Deixa podre com ação
Tem cápsula, tem bula
Tem mercado na humilhação
Tem melatonina pro sono que não vem
Tem codeína no dente e ninguém vê ninguém
Tem bupropiona pro cigarro
Tem trago escondido no corredor
Tem cocaína no banheiro pra aguentar o sabor
Tem Cytotec na gaveta, sangue frio, porta fechada
E a casa inteira fingindo que não ouviu nada
Tem Viagra no bolso
O velho compra pose e chama de paixão
E o que era nojo vira costume
Vira piada, vira ocupação
O corpo é uma empresa
E a empresa não fecha
Se quebra uma peça
Já vem outra receita
Se chora, medica, se cala, observa
Se grita, contorna
Se engorda, caneta
Se emagrece, reforma
Tem fila premium pro colapso
E senha pro desespero
Tem app pra não surtar
E desconto pro açougueiro
E a vida segue linda, limpa
Vendida e sorridente
Enquanto a podridão trabalha
De uniforme, diligente
Tem plano pra ansiedade
Tem pacote pra ereção
Tem antibiótico pro osso
Fralda pro coração
Tem tremedeira com nome
Tem decadência com logotipo
Tem velhice em prestação
E um funeral quase típico
E o clube privê da carne
Da culpa e da manutenção
Vai te chamar de cliente enquanto
Te come em decomposição