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Estágio bônus: Desbloqueado

Wendell Soares

Opa, entra aqui neste sagaz cubículo
Se não virou jornal de cão, o seu currículo
Foi selecionado pra ser colaborador servil
Mas antes explica a relação de um cu com hard skill
Que já vamos mensurar o seu melhor perfil
E assim, você tá dentro ou fora, talvez depois, talvez agora
Ou melhor, como aqui só tem gente fina
Aproveita o que vai vir, aqui sua sertralina
É melhor que esteja logo pronto pro combate
Chupa esse spoiler e não fique triste
Pensa que este job é tipo um delicado fist
Uma pausa na sarjeta antes de viver a vida
Afinal, pra morrer, cada alma só precisa estar viva
Sob qualquer merda de perspectiva
Merda mole, com mosca, vermes, mas perspectiva
Que não adianta nem perguntar o porquê
Já que é hora de achar que o herói é você

E depois que a gente engole
Lágrima, desaforo e água benta num só gole
Nos avisam que pode punheta em dupla de pau mole
E que é hora de se decidir se é crente ou cria
Lembrando que entre os dois, nada diferencia
Mas cria dá pra ter empatia
Crente, nem com anestesia
Mas esse é o rascunho da vida
Que acha mesmo que merece a mais-valia

E pra não admitir que errou você piora
Se era um graveto no rabo, agora é uma tora
Imensa, roliça, lodosa, mas por hora
Quem agradece vai longe, não é? Ô glória

E daí se pra isso você agora inspira
Sem prega, sem preces, mas se vira
E depois atropela o amigo
Que sabe demais, pode ser um perigo
É preciso zelar pela reputação
O rabo pode estar rasgado mas é puro seu coração

(Ê-ô, ê-ô, ê-ô)

Ah, vida, eu preciso te contar
Escuta, eu nunca te amei, mas pegava mal falar
Sabe, eu nunca fui fã de bar
Eu acabava indo lá e ficando até tarde
Porque por muito tempo me soou covarde
Ou mal-agradecido
Não celebrar suas agruras
Disfarçadas de ternura
Mas hoje eu tenho jogo de cintura

E te mandar pra casa do caralho
Sem outros porquê, já foi demais
Se isso é truco pode juntar a porra do baralho
Achar outra válvula de escape
Porque meu zap é passar a vez em definitivo
E nem finge que não sabe o motivo

Porque sabe
Sua desgraçada
Filha da puta
Merda cancerígena pingando pus
E abrindo uma baita beiço da porta do inferno
Copiando na cara dura o mito em busca do eterno
A maldita lenda cristão dos maiores babacas
Adorando um louco, um sem juízo
Adorando até vaca
E você toda saidinha, ah, o que ganhou em meter
A unha nessa casquinha
A ferida era minha
Não doía em você
Nem mesmo em que achava exagerado
Eu estava sentado
Ali na calçada do mundo
Pra não ser atropelado
Não era sobre desistir do jogo
Era pra tomar um ar, e faltava pouco
Quer dizer, acho que faltava
Era melhor ter sido ética, me dizer: Anda, lute
Mas você preferir chegar e me dar um chute
Voou dente pelo chão
E sangue, muito sangue
Vai, confessa, eu sei
Que você estava acompanhando
Sem muito interesse essa minha temporada
Por isso, duvido que justifique o que fez
Não foi um dia, foi quase um ano, mês após mês
A gente tinha um trato
Sei lá, eu achava que era um trato
Se não fosse era pelo menos bom senso
Do meu lado, eu não precisaria ser um cruel intenso
Do seu, era preciso me avisar a sua escolha de arma
Mas assim, porra, nem se fosse carma
Daria pra te defender
E entenda como quiser mas já deu
Só falta foder a última que me fodeu
Pra nunca mais participar da sua rinha
Não dá pra pedir a um aleijado pra andar
Nem ele nem a mim
E espero que não me incomode, dá pra entender?
Quem não tem nada a perder não tem nada a perder
Eu não estou desistindo de mim
Estou desistindo é de você
Então, faz o que quiser
Faz ou explode
Explode ou pelo menos não fode

Não mais comigo, faça com os seus
Seja por mim ou pelo seu Deus
Hahahaha
Olha Deus
Lá vem Deus
Vem rindo mas vem
Abram alas pra Deus
Eu fui
ADeus
Se a vida é bonita, é bonita
É bonita
Talvez eu veja
Mas há tanto só vejo uma coisa encardida
Fodida
Fodida e bem encardida
Mas talvez seja só minha reação precavida
Que não engole essa distopia desiludida
Vá à merda, vida
Vá e me largue na avenida
Meu samba não toca
Meu rock na soa
Se a vida quer ser boa
Que não seja esse mundo sem gás de uma coca
Pois coca
Muita coca
É o que ando precisando
Pra que seja menos desprovida
De um vazio dantesco
A porra da vida
E que novamente
Só uma vez
A minha voz seja ouvida

Composição: Wendell Soares