Quinta é o dia que dói mais
É quando o relógio me olha torto
Como se soubesse ainda ter
Pelo no canto do quarto
E onde você dormia sequer o Sol alcança mais
E eu desvio do ar para não ficar ainda pior
Há um conforto inventado tão somente para não ter que responder
Que todo tempo também é quinta
Seja essência, éter ou lembrança
Ou mesmo sinfonia
Onde a porta se fecha ao destino
Mas em todo caso é tão imenso o vácuo do colo
Que percebi como nenhuma palavra consegue tapar
Ferida de bicho
Quinta viu teu epitáfio manso
Cheiro de antes e saudade quente
Às vezes te ouço no que sobrou de sonho
Ouso imaginar que daqui para sempre
Os dias que ainda faltam
Sem me fazer diferença
Não terão o único peso confortável
Que me deitava em cima do peito
E ao mesmo tempo que evito pensar que foi
Definitivo e cruel
O mundo por instinto me lambe de ausência
(Ah, ah, ah, ah, ah)
Um cuidado de quinta
A quinta essência contradita
A quinta parte que incita
São quase cinco, hora maldita
E ainda que minha boca minta
Ao desdizer pra que não sinta
A alma inquieta ressuscita
Esse pavor de morrer quinta
Que morrer quinta nunca passa
Outono, flores ou invernos
E ao gritar tanta desgraça
Te quer no quinto dos infernos
Talvez assim faça justiça
Ao que rasgou-me e foi sucinta
Lhe tapa como cortiça
Esse pavor de viver quinta
Composição: Wendell Soares, Batata Jr.