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Lodo de Vidro

Alcimar Lourenco

O Sol invade o quarto feito um soco-inglês
Acordo assustado, já é a nona vez
Eu não preciso do sono pra ver o monstro chegar
O pesadelo é o hábito de ter que respirar

Calça furada, meia trocada, figurino do nada
Pés descalços no asfalto, a pele viva, queimada
Sou o personagem do filme que o cinema esqueceu
Onde o herói é o silêncio e o vilão sou eu

E o tempo é um rio que corre ao contrário
Eu giro o ponteiro do meu calendário
E sinto que o vão entre o passo e o chão
Vira o gatilho da minha

Canto um murmúrio de tristeza
Canto o que o espelho não confessa
Canto porque a alma é uma floresta
Densa, imensa, onde ninguém resta

Canto o reflexo no rio poluído
Canto o meu sonho interrompido

O olfato morreu, não sinto o cheiro da flor
O cinza do asfalto sequestrou minha cor
Meus olhos são jaulas de um brilho opaco
Guardam desejos quebrados no caco

Caminho em lodo de vidro sob os pés
Cada passo sangra o que eu fui, o que eu serei
Não sou o normal, não sou o que se espera
Sou a fera descalça no fim da era

Não tenho espelho, o vidro é turvo
No curso da água, meu corpo é curvo
Preso ao vazio, suspenso no breu
Se Deus não me viu
Quem sou eu?

Eu sou o eco do que não nasceu!

Canto
Mesmo em ruína
Canto
Mesmo em queda
Canto
Porque a dor ensina
Canto
Porque a dor me resta

Canto o reflexo no rio poluído
Canto o sonho interrompido
Canto
Canto

Eu não sei quem eu sou
Preso ao nada
No lodo
De vidro


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