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Urbanus

Alex Cruz

Letra

    Saio louco, sem destino, procurando o que fazer
    Pelas ruas um menino pede algo pra comer
    Aceito um vale transporte, eu moro no Laranjal
    Me disse assim sorrindo, segurando um jornal

    Minha mãe chama Maria, o meu pai é o seu João
    Minha irmã é Esperança, meu irmão Sebastião
    Eu nasci em Pedro Osório e morei na capital
    Pequeno vim pra Pelotas, numa noite temporal
    Me perdi pela cidade e conheci sabe Deus quem
    Até um louco vagabundo que dizia que era rei
    Andei por muitos lugares, provei coisas que eu nem sei
    Já roubei e já fui roubado, mas nunca matei ninguém
    Dormi em escadas de igrejas, senti medo e passei frio
    Certo dia pela rua, reconheci o meu tio
    Mais velho que a minha mãe, castelhano e camelô
    Contou que o meu primo Celestino, se casou
    Se formou em medicina e mudou-se pra Bahia
    Dá aulas de capoeira, manda cartas e fotografias
    Disse que devia uns caras e que sempre se escondia
    Despediu-se com um adeus
    Mande beijos a Maria

    Moço desculpe o meu jeito, fui contando minha vida
    E nem mesmo me apresentei, sou João Santos da Silva

    Dei-lhe um aperto de mãos, prazer, me chamo Rodrigo,
    Tenho um filho da tua idade, mas ele não mora comigo
    Estava indo visitá-lo quando você me parou
    Agora não tenho pressa o meu ônibus já passou
    Pegue o troco da passagem e compre algo pra comer,
    O que você faz tão longe?
    Moço eu vou lhe dizer:
    - Cuido carros nessa rua, faço mala bares nos sinais,
    Conto piadas e poesias, vendo balas e jornais
    Acontece que eu queria, ir pra escola e estudar
    Ter calçados, roupas limpas e um dia me formar
    Minha mãe diz que eu sou burro
    Junto lata o dia inteiro
    O meu pai vive bebendo e chorando no banheiro
    Mais um dia isso muda, pior não pode ficar
    Moço, muito obrigado, por parar e me ajudar

    Via naquele menino, um brilho em seu olhar
    Não havia rebeldia no seu jeito de falar
    Um anjo de carne e osso, me parou pra conversar
    Em meio a gritos de um velho que vendia ervas de chá

    Trinta segundos perdidos em um sinal fechado
    Um artista, um menino, faz da rua o seu palco
    Um cigarro a menos por um sonho guardado

    Um homem cego comprando ouro
    Até parece uma piada
    Um couver de Elvis, cuspindo fogo
    No mínimo uma coisa inusitada
    Um mendigo sem calças que faz caretas pras pessoas na calçada
    Somos urbanos sem respostas certas
    Pras nossas perguntas erradas


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