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Eu Tenho Medo

Allain Leprest

J'ai peur

J'ai peur des rues des quais du sang
Des croix de l'eau du feu des becs
D'un printemps fragile et cassant
Comme les pattes d'un insecte

J'ai peur de vous de moi j'ai peur
Des yeux terribles des enfants
Du ciel des fleurs du jour de l'heure
D'aimer de vieillir et du vent

J'ai peur de l'aile des oiseaux
Du noir des silences et des cris
J'ai peur des chiens j'ai peur des mots
Et de l'ongle qui les écrit

J'ai peur des notes qui se chantent
J'ai peur des sourires qui se pleurent
Du loup qui hurle dans mon ventre
Quand on parle de lui j'ai peur

J'ai peur, j'ai peur, j'ai peur
J'ai peur

J'ai peur du coeur des pleurs de tout
La trouille des fois la pétoche
Des dents qui claquent et des genoux
Qui tremblent dans le fond des poches

J'ai peur de deux et deux font quatre
De n'importe quand n'importe où
De la maladie délicate
Qui plante ses crocs sur tes joues

J'ai peur du souvenir des voix
Tremblant dans les magnétophones
J'ai peur de l'ombre qui convoie
Des poignées de feu vers l'automne

J'ai peur des généraux du froid
Qui foudroient l'épi sur les champs
Et de l'orchestre du Norrois
Sur la barque des pauvre gens

J'ai peur, j'ai peur, j'ai peur
J'ai peur

J'ai peur de tout seul et d'ensemble
Et de l'archet du violoncelle
J'ai peur de là-haut dans tes jambes
Et d'une étoile qui ruisselle

J'ai peur de l'âge qui dépèce
De la pointe de son canif
Le manteau bleu de la jeunesse
La chair et les baisers à vif

J'ai peur d'une pipe qui fume
J'ai peur de ta peur dans ma main
L'oiseau-lyre et le poisson-lune
Eclairent pierres du chemin

J'ai peur de l'acier qui hérisse
Le mur des lendemains qui chantent
Du ventre lisse où je me hisse
Et du drap glacé où je rentre

J'ai peur, j'ai peur, j'ai peur
J'ai peur

J'ai peur de pousser la barrière
De la maison des églantines
Où le souvenir de ma mère
Berce sans cesse un berceau vide

J'ai peur du silence des feuilles
Qui prophétise le terreau
La nuit ouverte comme un oeil
Retourné au fond du cerveau

J'ai peur de l'odeur des marais
Palpitante dans l'ombre douce
J'ai peur de l'aube qui paraît
Et de mille autres qui la poussent

J'ai peur de tout ce que je serre
Inutilement dans mes bras
Face à l'horloge nécessaire
Du temps qui me les reprendra

J'ai peur, j'ai peur, j'ai peur
J'ai peur
J'ai peur

Eu Tenho Medo

Eu tenho medo das ruas, dos cais de sangue
Das cruzes, da água, do fogo, dos bicos
De uma primavera frágil e quebradiça
Como as patas de um inseto

Eu tenho medo de vocês, de mim eu tenho medo
Dos olhos terríveis das crianças
Do céu, das flores, do dia, da hora
De amar, de envelhecer e do vento

Eu tenho medo da asa dos pássaros
Do silêncio negro e dos gritos
Eu tenho medo dos cães, eu tenho medo das palavras
E da unha que as escreve

Eu tenho medo das notas que se cantam
Eu tenho medo dos sorrisos que se choram
Do lobo que uiva na minha barriga
Quando se fala dele, eu tenho medo

Eu tenho medo, eu tenho medo, eu tenho medo
Eu tenho medo

Eu tenho medo do coração, das lágrimas de tudo
Do medo às vezes, do cagaço
Dos dentes que batem e dos joelhos
Que tremem no fundo dos bolsos

Eu tenho medo de dois e dois são quatro
De qualquer hora, de qualquer lugar
Da doença delicada
Que crava suas garras nas suas bochechas

Eu tenho medo da lembrança das vozes
Tremendo nas fitas gravadas
Eu tenho medo da sombra que transporta
Punhados de fogo para o outono

Eu tenho medo dos generais do frio
Que fulminam a espiga nos campos
E da orquestra do Norrois
Na barca dos pobres

Eu tenho medo, eu tenho medo, eu tenho medo
Eu tenho medo

Eu tenho medo de estar sozinho e em grupo
E do arco do violoncelo
Eu tenho medo de lá de cima nas suas pernas
E de uma estrela que brilha

Eu tenho medo da idade que despedaça
Com a ponta do seu canivete
O manto azul da juventude
A carne e os beijos à flor da pele

Eu tenho medo de um cachimbo que fuma
Eu tenho medo do seu medo na minha mão
O pássaro-lira e o peixe-lua
Iluminam as pedras do caminho

Eu tenho medo do aço que arrepia
A parede dos amanhãs que cantam
Da barriga lisa onde eu me ergo
E do lençol gelado onde eu entro

Eu tenho medo, eu tenho medo, eu tenho medo
Eu tenho medo

Eu tenho medo de empurrar a barreira
Da casa das roseiras
Onde a lembrança da minha mãe
Balança incessantemente um berço vazio

Eu tenho medo do silêncio das folhas
Que profetiza o solo
A noite aberta como um olho
Virado no fundo do cérebro

Eu tenho medo do cheiro dos pântanos
Palpitante na sombra suave
Eu tenho medo da aurora que aparece
E de mil outras que a empurram

Eu tenho medo de tudo que eu aperto
Inutilmente nos meus braços
Diante do relógio necessário
Do tempo que os tomará de volta

Eu tenho medo, eu tenho medo, eu tenho medo
Eu tenho medo
Eu tenho medo

Composição: