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Letra

Eu Tenho Medo

J'ai peur

Eu tenho medo das ruas, dos cais de sangueJ'ai peur des rues des quais du sang
Das cruzes, da água, do fogo, dos bicosDes croix de l'eau du feu des becs
De uma primavera frágil e quebradiçaD'un printemps fragile et cassant
Como as patas de um insetoComme les pattes d'un insecte

Eu tenho medo de vocês, de mim eu tenho medoJ'ai peur de vous de moi j'ai peur
Dos olhos terríveis das criançasDes yeux terribles des enfants
Do céu, das flores, do dia, da horaDu ciel des fleurs du jour de l'heure
De amar, de envelhecer e do ventoD'aimer de vieillir et du vent

Eu tenho medo da asa dos pássarosJ'ai peur de l'aile des oiseaux
Do silêncio negro e dos gritosDu noir des silences et des cris
Eu tenho medo dos cães, eu tenho medo das palavrasJ'ai peur des chiens j'ai peur des mots
E da unha que as escreveEt de l'ongle qui les écrit

Eu tenho medo das notas que se cantamJ'ai peur des notes qui se chantent
Eu tenho medo dos sorrisos que se choramJ'ai peur des sourires qui se pleurent
Do lobo que uiva na minha barrigaDu loup qui hurle dans mon ventre
Quando se fala dele, eu tenho medoQuand on parle de lui j'ai peur

Eu tenho medo, eu tenho medo, eu tenho medoJ'ai peur, j'ai peur, j'ai peur
Eu tenho medoJ'ai peur

Eu tenho medo do coração, das lágrimas de tudoJ'ai peur du coeur des pleurs de tout
Do medo às vezes, do cagaçoLa trouille des fois la pétoche
Dos dentes que batem e dos joelhosDes dents qui claquent et des genoux
Que tremem no fundo dos bolsosQui tremblent dans le fond des poches

Eu tenho medo de dois e dois são quatroJ'ai peur de deux et deux font quatre
De qualquer hora, de qualquer lugarDe n'importe quand n'importe où
Da doença delicadaDe la maladie délicate
Que crava suas garras nas suas bochechasQui plante ses crocs sur tes joues

Eu tenho medo da lembrança das vozesJ'ai peur du souvenir des voix
Tremendo nas fitas gravadasTremblant dans les magnétophones
Eu tenho medo da sombra que transportaJ'ai peur de l'ombre qui convoie
Punhados de fogo para o outonoDes poignées de feu vers l'automne

Eu tenho medo dos generais do frioJ'ai peur des généraux du froid
Que fulminam a espiga nos camposQui foudroient l'épi sur les champs
E da orquestra do NorroisEt de l'orchestre du Norrois
Na barca dos pobresSur la barque des pauvre gens

Eu tenho medo, eu tenho medo, eu tenho medoJ'ai peur, j'ai peur, j'ai peur
Eu tenho medoJ'ai peur

Eu tenho medo de estar sozinho e em grupoJ'ai peur de tout seul et d'ensemble
E do arco do violonceloEt de l'archet du violoncelle
Eu tenho medo de lá de cima nas suas pernasJ'ai peur de là-haut dans tes jambes
E de uma estrela que brilhaEt d'une étoile qui ruisselle

Eu tenho medo da idade que despedaçaJ'ai peur de l'âge qui dépèce
Com a ponta do seu caniveteDe la pointe de son canif
O manto azul da juventudeLe manteau bleu de la jeunesse
A carne e os beijos à flor da peleLa chair et les baisers à vif

Eu tenho medo de um cachimbo que fumaJ'ai peur d'une pipe qui fume
Eu tenho medo do seu medo na minha mãoJ'ai peur de ta peur dans ma main
O pássaro-lira e o peixe-luaL'oiseau-lyre et le poisson-lune
Iluminam as pedras do caminhoEclairent pierres du chemin

Eu tenho medo do aço que arrepiaJ'ai peur de l'acier qui hérisse
A parede dos amanhãs que cantamLe mur des lendemains qui chantent
Da barriga lisa onde eu me ergoDu ventre lisse où je me hisse
E do lençol gelado onde eu entroEt du drap glacé où je rentre

Eu tenho medo, eu tenho medo, eu tenho medoJ'ai peur, j'ai peur, j'ai peur
Eu tenho medoJ'ai peur

Eu tenho medo de empurrar a barreiraJ'ai peur de pousser la barrière
Da casa das roseirasDe la maison des églantines
Onde a lembrança da minha mãeOù le souvenir de ma mère
Balança incessantemente um berço vazioBerce sans cesse un berceau vide

Eu tenho medo do silêncio das folhasJ'ai peur du silence des feuilles
Que profetiza o soloQui prophétise le terreau
A noite aberta como um olhoLa nuit ouverte comme un oeil
Virado no fundo do cérebroRetourné au fond du cerveau

Eu tenho medo do cheiro dos pântanosJ'ai peur de l'odeur des marais
Palpitante na sombra suavePalpitante dans l'ombre douce
Eu tenho medo da aurora que apareceJ'ai peur de l'aube qui paraît
E de mil outras que a empurramEt de mille autres qui la poussent

Eu tenho medo de tudo que eu apertoJ'ai peur de tout ce que je serre
Inutilmente nos meus braçosInutilement dans mes bras
Diante do relógio necessárioFace à l'horloge nécessaire
Do tempo que os tomará de voltaDu temps qui me les reprendra

Eu tenho medo, eu tenho medo, eu tenho medoJ'ai peur, j'ai peur, j'ai peur
Eu tenho medoJ'ai peur
Eu tenho medoJ'ai peur


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