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Vergonha

Ángel Parra

Vergüenza

Si tú me miras, yo me vuelvo hermosa
Como la hierba a que bajó el rocío,
Y desconocerán mi faz gloriosa
Las altas cañas cuando baje al río.

Tengo vergüenza de mi boca triste,
De mi voz rota y mis rodillas rudas.
Ahora que me miraste y que viniste,
Me encontré pobre y me palpé desnuda.

Ninguna piedra en el camino hallaste
Más desnuda de luz en la alborada
Que esta mujer a la que levantaste,
Porque oíste su canto, la mirada.

Yo callaré para que no conozcan,
Mi dicha los que pasan por el llano,
En el fulgor que da mi frente tosca
Y en la tremolación que hay en mi mano.

Es noche y baja a la hierba el rocío;
Mírame largo y habla con ternura,
¡que ya mañana al descender el río
Lo que besaste llevará hermosura!

Vergonha

Se você me olha, eu me torno linda
Como a grama que recebeu o orvalho,
E não reconhecerão meu rosto glorioso
As altas canas quando eu descer ao rio.

Tenho vergonha da minha boca triste,
Da minha voz quebrada e dos meus joelhos duros.
Agora que você me olhou e veio até mim,
Me encontrei pobre e me toquei nua.

Nenhuma pedra no caminho você encontrou
Mais nua de luz na alvorada
Do que esta mulher que você levantou,
Porque ouviu seu canto, o olhar.

Eu vou ficar em silêncio para que não conheçam,
Minha felicidade os que passam pelo campo,
No brilho que dá minha testa áspera
E na tremulação que há na minha mão.

É noite e o orvalho desce na grama;
Olhe para mim com calma e fale com ternura,
Porque amanhã, ao descer o rio,
O que você beijou levará beleza!

Composição: Gabriela Mistral, Angel Parra