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Meus trapos

Antonio Tormo

Mis harapos

Caballero del ensueño tengo pluma por espada
Mi palabra es el alcázar de mi reino la ilusión
Mi romántica melena así lacia y mal peinada
Es más bella que las trenzas enruladas de Byron

Tengo un primo, él es rico, poderoso, bien querido
Yo soy pobre, soy enfermo, pienso, escribo y sé soñar
Y una noche, de esas noches tan amargas que he sufrido
Mis harapos con su smoking se rozaron al pasar

Me miró como al descuido, no dejó su blanca mano
Se estrechar con la mía contagiándole el calor
Él, su smoking, lo vestía mi elegante primo hermano
Y alejose avergonzado de su primo el soñador

El helado cierzo a ratos arreciaba incompasivo
Yo sentía frío adentro, frío afuera y todo así
Y arrimándome a una puerta rompí en llanto convulsivo
Y llorando como un niño, como un hombre maldecí

Va rozando las hilachas de mis trágicos harapos
Una mueca de ironía mi miseria le arrancó
También ríen en los charcos los inmundos renacuajos
Cuando rozan el plumaje de algún cóndor que cayó

Arquetipo inconfundible de tartufos que disfrazan
Con el corte irreprochable de algún esmoquin o frac
Tú eres, primo, el arquetipo, mis orgullos te rechazan
Déjame con mis harapos, son más nobles que tu frac

Meus trapos

Cavaleiro dos sonhos, tenho pena como espada
Minha palavra é o castelo do meu reino, a ilusão
Meu cabelo romântico, assim liso e mal arrumado
É mais belo que as tranças enroladas de Byron

Tenho um primo, ele é rico, poderoso, bem querido
Eu sou pobre, sou doente, penso, escrevo e sei sonhar
E uma noite, dessas noites tão amargas que já passei
Meus trapos se roçaram no smoking dele ao passar

Ele me olhou de soslaio, não deixou sua mão branca
Se apertar com a minha, contagiando o calor
Ele, seu smoking, era vestido pelo meu elegante primo
E se afastou envergonhado do primo sonhador

O vento gelado às vezes soprava impiedoso
Eu sentia frio por dentro, frio por fora e tudo assim
E me encostando a uma porta, rompi em choro convulsivo
E chorando como uma criança, como um homem, amaldiçoei

Vai roçando as fibras dos meus trágicos trapos
Uma careta de ironia minha miséria lhe arrancou
Também riem nas poças os imundos sapos
Quando roçam a plumagem de algum condor que caiu

Arquetipo inconfundível de falsários que se disfarçam
Com o corte impecável de algum smoking ou fraque
Você é, primo, o arquetipo, meus orgulhos te rejeitam
Deixe-me com meus trapos, são mais nobres que seu fraque

Composição: Alberto Ghiraldo