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Letra

    Revisitação
    (Arthur, sobre poema de José Paulo Paes)

    Cidade, por que me persegues?

    Com os dedos sangrando
    Já não cavei em teu chão
    Os sete palmos regulamentares
    Para enterrar meus mortos?
    Não ficamos quites desde então?

    Por que insistes
    Em acender toda noite
    As luzes de tuas vitrinas
    Com as mercadorias do sonho
    A tão bom preço?

    Não é mais tempo de comprar.
    Logo será tempo de viajar
    Para não se sabe onde.
    Sabe-se apenas que é preciso ir
    De mãos vazias.

    Em vão alongas tuas ruas
    Como nos dias de infância
    Com a feérica promessa
    De uma aventura a cada esquina.
    Já não as tive todas?

    Em vão os conhecidos me saúdam
    Do outro lado do vidro
    Desse umbral onde a voz
    Se detém interdita
    Entre o que é e o que foi.

    Cidade, por que me persegues?

    Ainda que eu pegasse
    O mesmo velho trem,
    Ele não me levaria
    A ti, que não és mais.

    As cidades, sabemos
    São no tempo, não no espaço,
    E delas nos perdemos
    A cada longo esquecimento
    De nós mesmos.

    Se já não és e nem eu posso
    Ser mais em ti, então que ao menos
    Através do vidro
    Através do sonho
    Um menino e sua cidade saibam-se afinal

    Intemporais, absolutos


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