exibições de letras 3.891

Chimarrão da Madrugada

Aureliano de Figueiredo Pinto

LetraSignificado

    Não sei por que nesta noite
    o sono velho cebruno
    ergueu a clina e se foi!
    E eu que arrelie ou me zangue.

    Tenho olhos de ave da noite,
    ouvidos de quero-quero
    cordas de viola nos nervos
    e uma secura no sangue.

    Então, da marquesa salto
    e vou direto ao galpão:
    bato tição com tição
    e a lavarede clareia
    os caibros do galpão alto.

    Já a cuia bem enxaguada,
    corto um cigarro daqueles
    de reacender vinte vezes
    num trote de quatro léguas
    de uma chasqueira troteada.

    E, quando a chaleira chia,
    principio um chimarrão,
    mais verde e mais topetudo
    do que um mate de barão.

    Me estabeleço num banco
    pra gozar gole e fumaça,
    pitando um naco de branco.
    E entre tragada e golito
    saludo mui despacito
    cada recuerdo que passa.

    Um galo - o cochincho-mestre!
    o laço desenrodilha.
    E fica só com a presilha
    e solta a armada bem grande
    do laço de um canto largo
    de sobrelombo a uma estrela.

    E os outros galos-piazitos
    vão atirando os lacitos
    como em guachas de sinuelo.

    E até um garnisé cargoso
    vai reboleando orgulhoso
    o soveuzito feioso
    feito de couro com pêlo.

    Nem relincham os cavalos!
    Com brilhos de ponte-suelas,
    lá em riba estão as estrelas!
    Cá em baixo os cantos dos galos.

    A estrela d'alva trabalha
    na imensidão da hora morta:
    - ou num perfil de medalha
    ou a maiúscula inicial
    sobre a prata de um punhal
    que ainda há de sangrar o dia.

    E a "Nova" ao largo se corta,
    magra, esquilada, arredia,
    empurrando a guampa torta
    contra o ventito do Sul,
    como num campo de azul,
    a ovelha chamando a cria.

    Solito, perto do fogo,
    como um bugre imaginando,
    escuto o Tempo rodando
    sem descobrir o seu jogo.

    O perro Baio-coleira
    faz que cochila... E abre os olhos,
    a espaços, regularmente.
    E me fixa os olhos claros
    como um amigo, dos raros,
    cuidando do amigo doente.

    É um gosto olhar os brasidos
    E os luxos das lavaredas
    dançando rendas e sedas
    para a ilusão dos sentidos.
    E entre o amargo e a tragada
    tranqueiam na madrugada
    tantos recuerdos perdidos.

    E o chimarrão macanudo
    vai entrando pelo sangue!
    Vai melhorando as macetas,
    curando as juntas doridas
    como água arisca de sanga
    sobre loncas ressequidas.

    O peito avoluma e arqueia
    como cogote de potro.
    E as ventas se abrem gulosas
    por cheiro de madrugada.
    - Potrilhos em disparada
    num Setembro de alvoroto.

    Ah! Sangue velho... Descubro
    porque hoje estás de vigília:
    - Dois séculos de Fronteiras.
    de madrugadas campeiras,
    de velhas guardas guerreiras
    bombeando pampa e coxilha!

    Por isso é que hoje não dormes!
    Ouviste a voz de ancestrais:
    -"O chimarrão principia!
    Alerta! O campo vigia!
    Da meia-noite pra o dia
    Um taura não dorme mais...

    Composição: Aureliano De Figueiredo Pinto. Essa informação está errada? Nos avise.

    Comentários

    Envie dúvidas, explicações e curiosidades sobre a letra

    0 / 500

    Faça parte  dessa comunidade 

    Tire dúvidas sobre idiomas, interaja com outros fãs de Aureliano de Figueiredo Pinto e vá além da letra da música.

    Conheça o Letras Academy

    Enviar para a central de dúvidas?

    Dúvidas enviadas podem receber respostas de professores e alunos da plataforma.

    Fixe este conteúdo com a aula:

    0 / 500

    Opções de seleção