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Convulsões De Um Único Grito (Parte II) Crepúsculo: 1976

Ávora Di Carlla

Letra

    Saia da minha consciência e vá para o seu presbitério
    Lá estará certificado da sua importância imprescindível
    Entre tantas impossibilidades concretas
    Que atacam e se manifestam em meu fim
    Como agora, em algum lugar deste quarto
    Haverá de existir vida além da escuridão

    A escuridão do silêncio absoluto dos mortos
    A escuridão das sombras emitidas pelas rosas negras
    Copuladas sobre as cartilagens biodegradáveis
    Dos microelementos da Terra

    Nada pode curar o que destruímos e amaldiçoamos com as próprias mãos
    Assim como era no princípio
    Sacrifica-me ausente inconformada pelo abandono endurecedor
    Do seu cinéreo tabernáculo
    Roubando as minhas forças que ainda vegetam úmidas e trêmulas
    Em materiais, veias impacientadas
    Como num paranoico e suave deleite obscuro
    Obrigando-me a chorar
    Feito um homem abatido pela despedida
    Nos momentos em que mais necessito de mim mesmo

    Dentro da minha cabeça mora uma cigarra pagã
    Que não para de recitar ordens estranhas
    Sombra rastejante que foge do despertar vespertino
    De mais um novo dia
    Somos uma espécie de nada
    Pretensiosamente derrotados
    Fonte ininterrupta de agonia e calafrios nebulosos
    Que ocultam a nossa triste face excomungada

    Carne da minha carne
    Exalava da pele a fragrância mórbida dos lírios ameaçadores
    O cheiro não era de enxofre
    Era um perfume agradável
    Não tão doce
    Mas hipnótico, grave

    Em minha direção
    Trazia em um embornal
    A cabeça de um vampiro
    E os braços de uma criatura de bom coração
    Não toque os meus pulsos arranhados pela muralha de ferro
    Que habita a lâmina secreta da minha singularidade clandestina!
    Regularmente se sobrecarrega na dor dos lázaros
    Com intranquilidade desesperadora das gerações ameaçadas
    Pelas noites que passamos desprotegidos

    Eu não sou eu
    Sou o sangue estancado em seu ventre perturbador
    A vaga sensação do que há de existir
    Entre tantas e irrecuperáveis lembranças
    Atemorizadas em sua mais profunda e infecundada memória
    Sombra que vem e parte para dentro de mim
    O que nos resta, senão outro
    Que vaga solitário pelas entranhas cadentes
    De nossa escrofulosa imperfeição?

    Ainda temos uma chance de encontra-lo
    Entre os logradouros e subterrâneos fugitivos
    De mais um nascer apaixonado da vida
    Já nasci por algumas poucas dezenas de vezes
    Mas hoje, pela primeira vez eu morro
    23 de Novembro de 1976
    Sombra, descanse em paz! ”


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