exibições de letras 19.003

No Ano da Fome (part. Macaia)

Azagaia

LetraSignificado

    [Azagaia]
    Tudo começou com pedaços de unhas que venderam
    Quando descobriram que era a cura para as doenças que aprenderam
    Então cortaram unhas e depois resolveram
    Caçar unhas nos cadáveres que se desintegram

    Depois alguém disse que o cabelo também é remédio
    Misturado com as unhas faz o pénis ficar um prédio
    Muitos ficaram carecas p’ra crescer esse negócio
    Até comprava-se réguas p’ra oferecer a cada sócio

    A seguir descobriram a utilidade do suor
    Então alguém suava p’ra o outro ganhar melhor
    Vendia-se em colherinhas esse líquido com sal
    Misturado com saliva cuspida e cheirava mal

    Saliva, já ninguém cuspia de borla
    Cada litro produzido, valia um Dólar
    Esse era chamado o negócio da liquidez
    A saliva de cada dia era paga ao fim do mês

    Dizem que ninguém sabia ao certo o que era certo
    Mas o negócio rendia quando a fome chegava perto
    Tudo se vendia a centímetro ou a metro
    Naquele ano cada vida era um objecto

    [Macaia]
    Tu tens a chance de ser a minoria
    E conseguir mostrar que o amanhã
    Que o amanhã pode ser usado por cada um de nós
    Para provar que a esperança não morre

    [Azagaia]
    Das raças misturadas surgiam novas raças
    Então a fome batia a porta de novas casas
    Essa fome era maldita e chegava de repente
    E foi aí que descobriram que se podia vender gente
    Às vezes por inteiro, outras vezes em bocados
    Muitas vezes por dinheiro, outras vezes por um cargo
    Novo de chefia numa empresa da capital
    E assim decepava-se outra cabeça nacional

    As autoridades perderam autoridade sobre esse crime
    Deixou de ser crime, virou fraqueza do regime
    Uns dormiam gradeados com medo de perder um braço
    O mercado especulativo pagava bem por um pedaço

    E p’ra matar a fome há quem matava uma pessoa
    Quantos perderam a vida p’ra os outros ganharem vida boa?!
    Naquele ano já nem se pensava em matar animais
    As pessoas pesavam-se em Dólares ou Meticais

    E digo mais... Surgiram os canibais
    Com a fome daquele ano, filhos comeram pais
    Quando a barriga rói, há sempre um atalho

    Toda gente já sabia o que se vendia no talho
    Sem trabalho, sem perspectiva de vida
    No ano da fome, nenhum beco tinha saída
    Matava-se por comida, e todos eram comida
    Todos mentiam, mas a verdade era sabida

    [Macaia]
    Tu tens a chance de ser a minoria
    E conseguir mostrar que o amanhã
    Que o amanhã pode ser usado por cada um de nós
    Para provar que a esperança não morre

    [Azagaia]
    Havia fome, mas era necessário haver lei
    É que no meio dos escravos há sempre quem quer ser rei
    Foi aí que se decidiu que não podiam morrer todos
    Todos eram valiosos mas valiam mais os outros

    Então foi decretado, só se matava os diferentes
    Estrangeiros, aleijados, mendigos e indigentes
    Raças misturadas com cores irreverentes
    Os compradores analisavam os olhos e os dentes

    A febre era total, coitados dos albinos
    Eles foram perseguidos e vendidos como caprinos
    Muitos clamaram a Deus pelos seus destinos
    Com medo que a fome viesse buscar os seus filhos

    Pandemónio
    Cada Homem era um demónio
    Ninguém podia confiar no seu próprio neurónio
    Quanto mais no do vizinho
    Houve quem viveu sozinho
    Houve quem morreu com todos
    Embriagado pelo vinho

    Mas depois daquele ano tudo ficou mais estranho
    Todos ficaram diferentes na cor e no tamanho
    A mistura era completa, todos podiam ser mortos
    E foi aí que todos temeram apontar os outros

    [Macaia]
    Tu tens a chance de ser a minoria
    E conseguir mostrar que o amanhã
    Que o amanhã pode ser usado por cada um de nós
    Para provar que a esperança não morre


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