Pierrot e a Ternura
É um bandido
Com alma sensível
Pra te estender
Ele usa luvas
Mau garoto
Mas cavalheiro
Ele te derruba
Na afeição
Incógnito
Ele te manda
Um pouco de ternura
Assinado Pierrot
Cantem, cantem
Senhores, Senhoras
Vocês vão entregar
A alma na alegria
Se você é feio
E te ignoram
Pierrot corrige
Seu retrato
Os pequeninos
Ele estica
Os grandes, por outro lado
São encurtados
Até os gordos
Ele comprime
Com ternura
Assinado Pierrot
Cantem, cantem
Senhores, Senhoras
Vocês vão entregar
A alma na beleza
Quando se está morto
É pra vida
Eu te imploro
Fique mais um pouco
Não vá embora
Seria muito bobo
Por um impulso
Por um passo em falso
Se os médicos
Te desesperam
Deixa rolar
Um assassino
É aqui embaixo
O especialista
Para os turistas
Do além
Os frios
Muitas vezes te entristecem
Ele, seus cadáveres
Estão bem feitos
Os defuntos
Que te odeiam
Te fazem cara feia
E tá certo
Todos os bonzinhos
Ele os mima
Depois numera
Seus restos
Mas os horríveis
Ele ignora
Que vivam ainda
Tanto faz pra eles
O trovador
Da grande viagem
Tem muito trabalho
Pra seus velhos dias
Ele é o chefe
De uma loja
Onde se explica
Sobre papelão
Os garotos
Quebram cachimbos
E se matam
Por um nougat
Os destemidos
Os homicídios
Que Pierrot guia
Seu primeiro golpe
A sociedade,
Apesar de tudo, vigia
Ela observa
Seus interesses
Ela cobriu
O bravo apache
De mil manchas
De males diversos
E agarrando
Suas ferramentas
Coloca em férias
O velho bandido
Pra que serve
Viver honesto?
Te prendem
E é a lei
Pra que serve
Amar os homens?
A gente consome
Em tantas guerras
Pra que serve
Amar as mulheres?
Elas se inflamam
E é o inferno
Pra que serve
Amar os bichos?
A gente compra
No açougue
Pra que serve
Amar a vida?
Ela é bonita
Mas custa caro
Boa noite Senhores
Boa noite Senhoras
Estão te chamando
Fechem os olhos
Pegue essas flores
Artificiais
Porque são elas
Que tocam o coração
Uma última palavra
Pra sua direção
Arrependimentos, ternuras
E até logo
Cantem, cantem
Que todo mundo
Feche a roda
Do outro lado