22 de Abril de 2022, às 19:00
Emicida é um dos maiores artistas brasileiros e isso não tem como negar. Suas músicas são profundas e se direcionam para o cotidiano de pessoas negras para que elas se sintam representadas.
Com o sucesso de AmarElo, álbum mais recente do rapper, suas composições começaram a chamar ainda mais a atenção do público e se consagraram.

Uma música que merece destaque é Eminência Parda, faixa que conta com várias participações especiais: Dona Onete, Jé Santiago e Papillon.A parte musical é incrível e sua letra retrata temas de grande importância para a sociedade.
Entenda do que a música Eminência Parda trata com a nossa análise!
Em Eminência Parda, vemos várias referências ao contexto das pessoas negras, como violência policial, autoestima e até mesmo sobrevivência. A música começa com uma abertura de Dona Onete:
Muriquinho piquinino, muriquinho piquinino
Purugunta aonde vai, purugunta aonde vai
É comum que as pessoas estranhem quando veem alguém falando diferente do que a língua portuguesa define como certo, como os versos acima, mas vale lembrar que o modo de falar também é cultural.

O pretoguês, a marca da africanização no português do Brasil, é presente na vida de pessoas afrodescendentes, por isso não deve ser visto como algo que precisa ser consertado.
Após a introdução, Jé Santiago entra na música com sua voz inconfundível e versos impactantes:
Escapei da morte, agora sei pra onde eu vou
Sei que não foi sorte, eu sempre quis tá onde eu tô
Não confio em ninguém, não
Muito menos nos po-po (fuck the police)
No Brasil, um jovem negro morre a cada 23 minutos. Por isso, muitas pessoas vivem com os dias contados, já que o racismo está sempre pronto para acabar com uma vida simplesmente pela cor da pele dela.
Na estrofe, Jé Santiago relata a sua experiência e reconhece a importância de ter sobrevivido. 🙏

Além disso, ele também mostra o seu posicionamento contra a polícia, um órgão que é constantemente denunciado por casos de abuso de autoridade contra pessoas negras.
Os profissionais já apareceram como assassinos de inocentes, reforçando o verso em que o rapper fala: Não confio em ninguém, não, muito menos po-po (fuck the police), em que po-po refere-se aos policiais.
Com todo o cenário montado na mente do ouvinte, chega o momento de Emicida entrar na música para mostrar porque ele é um dos maiores rappers do Brasil.
[…]
Eram rancores abissais
Fiz a fé ecoar como catedrais
Sacro igual Torás, mato igual corais
Tubarão voraz de saberes orientais
Meu cântico fez do Atlântico um detalhe quântico
[…]
Me sinto tipo a invenção do zero
Não sou convencido (não), sou convincente
Aí, vê na rua o que as rima fizeram
A sociedade mostra seu racismo quando considera a cultura negra como errada, como é o caso das rimas de rap.
É uma forma de arte marginalizada, mas foi a partir delas que Emicida, um dos maiores nomes da música brasileira, descobriu e demonstrou seu talento. Hoje ele mostra o que as rimas fizeram com ele: o colocaram no topo do mundo.

A figura de Emicida é tão grande que ele se mostra como um elo entre o Brasil e o continente africano ao dizer que Meu cântico fez do Atlântico um detalhe quântico, ou seja, através de sua voz ele foi capaz de aproximar esses dois lados do mundo por meio de letras que refletem a vida de pessoas negras que estão em qualquer lugar.
Mas prepare-se, que o rei do rap nacional tem muito mais para te mostrar! A estrofe seguinte diz:
[…]
Recalibra o ying-yang
Igual um cineasta, eu busco a fresta, ofusco a festa
Mira a testa, eu mando o Kim Jong (Masta)
Eu decido se cês vão lidar com King ou se vão lidar com Kong
Minha caneta tá fudendo com a história branca
E o mundo grita: Não para, não para, não para
Então supera a tara velha nessa caravela
Eu subo, quebro tudo e eles chama de conceito
Eu penso que de algum jeito trago a mão de Shiva
Isso é Deus falando através dos mano
Sou eu mirando e matando a Klu
Só quem driblou a morte pela Norte saca
Que nunca foi sorte, sempre foi Exu
Emicida continua nos mostrando o poder que suas rimas tem para combater cada dia mais a estrutura racista da sociedade, como quando ele fala Minha caneta tá fudendo com a história branca e Sou eu mirando e matando a Klu, em referência ao grupo supremacista branco KKK (Ku Klux Klan).
Um outro ponto muito interessante em Eminência Parda é ver a alusão ao deus Shiva, um dos deuses supremos do hinduísmo. É uma referência nova e profunda, já que a divindade é conhecida como o destruidor e regenerador, ou seja, o seu poder de destruição permite que novas coisas nasçam e floresçam.
No contexto da música, é como imaginar que nossa sociedade racista poderia ser substituída por tempos melhores a partir dos nossos deuses, no caso o próprio Emicida.
Para concluir o que tem a dizer, o rapper entra com uma última estrofe:
Como abelha se acumula sob a telha
Eu pastoreio a negra ovelha que vagou dispersa
Polinização pauta a conversa
Até que nos chamem de colonização reversa
Todo mundo deve ter ouvido falar sobre a ideia do racismo reverso. É o tipo de situação em que uma pessoa branca sofreria preconceito, supostamente, apenas por ser branca, e Emicida faz um trocadilho com a situação ao afirmar que o seu objetivo é fazer com que a sociedade vire uma colonização reversa.
Ou seja, ao invés de pessoas brancas dominando e impondo sua cultura sobre os negros, que o contrário aconteça. O rapper também se mostra como uma figura paterna em meio à população negra, sendo o responsável por cuidar de quem ainda se sente muito perdido em uma sociedade racista.
Muita coisa para absorver, né? Mas Papillon ainda tem mais o que dizer:
Não tem dor que perdurará
Nem o teu ódio perturbará
A missão é recuperar
Cooperar e empoderar
[…]
Foco e atenção na nossa ascensão
Fuck a opressão
Não tem outra opção
Dizem que eu cruzei a meta
Pra mim nem comecei
Cheguei, rimei, ganhei, sou rei
Os versos do rapper são motivacionais para a população negra ao mostrar que todos têm força para continuar lutando, apesar dos baques. Quando Papillon menciona que Dizem que eu cruzei a meta, pra mim nem comecei é sobre ir além do que as pessoas esperam de você. 💪

Eminência Parda encerra com o verso que Dona Odete canta no começo:
Muriquinho piquinino, muriquinho piquinino
Purugunta aonde vai, purugunta aonde vai
É lindo ver a música como um círculo que começa e acaba da mesma forma.
Para complementar ainda mais a relevância da música Eminência Parda e deixar a análise mais completa, Emicida lançou um projeto audiovisual em que podemos entender ainda mais o que ele quis dizer com seus versos.
O clipe mostra a noite de uma família de pessoas negras que sai para jantar em um restaurante chique e dominado por pessoas brancas. Elas ficam claramente incomodadas pela presença da família, como se estivessem sendo ameaçadas.
A história mostra dois pontos de vista: a realidade, em que todos estão apenas jantando e celebrando, e a visão preconceituosa de quem vê aquelas pessoas como animais. 😔
Emicida trás vários pontos que são debatidos na comunidade negra, como a visão do homem negro como alguém violento e criminoso, a sexualização da mulher negra e a ideia que muitos brancos ainda mantém de colocar o negro como escravizado.
Material obrigatório para quem quer se tornar uma pessoa antiracista!
Agora você já conhece a análise da música Eminência Parda, que faz parte de AmarElo, álbum de Emicida que foi lançado em 2019.
O projeto conta com uma faixa título que tem participação de Pabllo Vittar e Majur, artistas que fazem parte da comunidade LGBTQIA+, além de apresentar um trecho da música Sujeito de Sorte, de Belchior.
Com tantos detalhes especiais, temos certeza que você vai adorar conhecer o significado de AmarElo. É a música perfeita para retomar a fé na humanidade!





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