Confira a análise da música Pacato Cidadão, do Skank

Analisando letras · Por Érika Freire

5 de Dezembro de 2019, às 19:00

É incrível como algumas músicas conseguem traduzir a realidade atual mesmo anos após seu lançamento.

Pacato Cidadão, dos mineiros do Skank, faz parte do segundo álbum do grupo, Calango, lançado em 1994, e que vendeu mais de 1,2 milhão de cópias.

Skank
Créditos: Divulgação

E o que será que a letra quer nos contar? Pacato significa alguém de natureza calma, não agressiva; pessoa dotada de muita paciência; inerte, quase apático. 

A música voltou a ser bastante buscada depois da polêmica do “macaco cidadão”. Um internauta foi fazer uma crítica a respeito de um post do vocalista Samuel Rosa sobre a criminalização da homofobia e acabou confundindo o nome da música.

O seguidor sugeriu que era frescura o cantor defender esses tópicos, sendo que o próprio Skank tinha uma música chamada macaco cidadão, o que teoricamente configura crime de racismo.

Fã confunde Pacato Cidadão com Macaco Cidadão
Créditos: Divulgação

Bem, a verdade é que o Skank nunca foi óbvio em seus quase 30 anos de carreira e suas músicas sempre fazem críticas e nos convidam à reflexão. E Pacato Cidadão é uma delas.

Vamos saber mais sobre o significado da canção? 

Análise da música Pacato Cidadão

A música Pacato Cidadão foi composta por Samuel Rosa e Chico Amaral e faz parte do álbum Calango, de 1994. Calango é o nome de uma dança típica de Minas, mais precisamente do Norte do estado.

Calango, dança mineira
Calango, dança mineira / Créditos: Divulgação

A letra apresenta um retrato sobre o cidadão brasileiro, que opta por viver a vida de um jeito apático, sem reclamar de nada, sem questionar, deixando, assim, que os assuntos políticos e sociais, que deveriam ser obrigação de todos, fiquem apenas nas mãos de governantes.

É como se o cidadão não se sentisse parte das questões essenciais que definem a nossa vida diariamente. E a letra retrata esse jeito de deixar as coisas acontecerem sem qualquer tipo de preocupação.

Vamos entender melhor essa crítica feita em Pacato Cidadão fazendo uma análise da letra:

Oh! Pacato Cidadão!
Eu te chamei a atenção
Não foi à toa, não
C’est fini la utopia
Mas a guerra todo dia
Dia a dia, não  

Na primeira estrofe da música, Samuel Rosa e Chico Amaral fazem um alerta sobre os problemas sociais do país, anunciando o fim de uma utopia — c’est fini la utopia significa acabou a utopia, em francês. 

Utopia é um estado considerado ideal para se viver em harmonia e felicidade plena entre indivíduos. É uma forma de imaginar a sociedade perfeita, com situações mais justas para todos, igualdade, boas condições financeiras e bem-estar.

Porém, saímos tanto daquilo que seria de fato o correto que hoje a ideia de utopia é mais conhecida como uma fantasia, ou seja, não é algo possível de realizar. 

O Pacato Cidadão tem um pouco de cada um de nós, que vai pra guerra todos os dias mas está adormecido. Ele não sabe o motivo de tantas horas de trabalho, apenas se entrega àquilo que é imposto, sem questionar absolutamente nada.

E tracei a vida inteira
Planos tão incríveis
Tramo a luz do Sol
Apoiado em poesia
E em tecnologia
Agora à luz do Sol 

O segundo trecho apresenta o nosso sonho, pois mesmo sendo pacatos, ainda sonhamos com planos incríveis, planejamos o futuro e nos apoiamos nas artes para tentar suprimir um pouco as nossas angústias. 

Acontece que os planos traçados parecem nunca acontecer, e é isso que a letra de Pacato Cidadão sugere. Em seguida, segue o refrão reforçando a inércia de cada um.

Pra que tanta TV
Tanto tempo pra perder
Qualquer coisa que se queira
Saber querer
Tudo bem, dissipação
De vez em quando é bão
Misturar o brasileiro
Aaaaai!
Com alemão
Pacato Cidadão!
É o Pacato da Civilização 

Chegamos então à parte mais crítica da música, que questiona o excesso de televisão, com programas que contribuem para deixar esse cidadão ainda mais adormecido, perdendo tempo todos os dias.

A letra até sugere que tudo bem ter um pouco de distração de vez em quando, mas que, na sociedade brasileira, o uso da televisão é excessivo. 

É importante ressaltar que, apesar da música fazer uma crítica à sociedade e ao cenário político dos anos 90, a crítica continua bastante atual.

Pra que tanta sujeira
Nas ruas e nos rios
Qualquer coisa que se suje
Tem que limpar

Se você não gosta dele
Diga logo a verdade
Sem perder a cabeça
Sem perder a amizade

Nestas estrofes, a letra aponta alguns dos principais problemas do país, como o excesso de sujeira nas ruas, a falta de políticas ambientais que de fato funcionem, e culpa também o próprio cidadão, que muitas vezes não cumpre com seus deveres.

Em seguida, a música aborda a hipocrisia, a falsidade que acabamos permitindo em nossas vidas. Nos obrigamos, por exemplo, a conviver com situações e pessoas que não são afins com a nossa energia. 

Consertar o rádio
E o casamento é
Corre a felicidade
No asfalto cinzento

Neste trecho, o Skank aborda o marasmo, a infelicidade das relações afetivas e o quanto isso tem tornado a vida insustentável. 

Se abolir a escravidão
Do caboclo brasileiro
Numa mão educação
Na outra dinheiro 

Veja que a letra se refere à escravidão como ainda existente, ou seja, como se não tivesse sido abolida, de forma oficial, no passado. Infelizmente, a  sociedade segue sendo escravizada pela forma de trabalho, pela carga horária exaustiva e pelos salários degradantes. 

O povo continua a ter que fazer escolhas que, na realidade, por direito, deveriam ser intrínsecas à vida. Educação, dinheiro, amor, respeito… Deveríamos ter isso sempre, e não precisar escolher um a outro.

Aqui, quando se tem uma coisa, se perde outra. O pacato cidadão precisa abrir mão de algo para conseguir outra coisa, e sempre foi assim!

Como podemos observar, a análise da música Pacato Cidadão é um triste retrato do Brasil atual.

A música do Skank tem melodia animada, divertida, porém traz uma letra que critica cada um de nós, que vivemos muitas injustiças sociais e continuamos de braços cruzados. Assistimos tudo sem tomar qualquer tipo de atitude. 

30 anos de sucesso e respeito

O Skank vai completar 30 anos de carreira em 2020 e anunciou recentemente que fará uma pausa. Formado em 1991, a banda mineira se consagrou no cenário musical misturando o rock and roll com o reggae jamaicano. 

Capa do álbum Calango, do Skank
Capa do álbum Calango / Créditos: Divulgação

Depois do sucesso do álbum Calango, o Skank lançou o inesquecível Samba Poconé, que levou o grupo para uma turnê internacional, passando por Argentina, França, Estados Unidos, Portugal, Chile, Espanha, entre outros países.

O disco vendeu quase 2 milhões de cópias no Brasil e a música Garota Nacional ficou por três meses liderando as paradas de sucesso, inclusive na Espanha.

Continue a refletir com o Skank

As músicas do Skank sempre trazem letras marcantes e que geraram frases que são verdadeiras poesias. Confira 40 frases de hits memoráveis da banda mineira.

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