Confira a análise de Roda, música da Pitty com o BaianaSystem

Analisando letras · Por Renata Arruda

19 de Março de 2020, às 08:00

Nascida na Bahia, Pitty cresceu com o samba do recôncavo, com a capoeira e com o candomblé, além de ter convivido com influências de músicos como Dorival Caymmi em sua trajetória. Mas essas referências só foram aparecer em sua música em 2019, quando a cantora lançou o álbum Matriz.

Pitty
Créditos: Divulgação

Exemplo disso é Roda, faixa em que a cantora divide a letra e os vocais com o BaianaSystem, grupo de Salvador que inovou ao surgir na cena baiana em 2009 fazendo um som que mistura ritmos afro-latinos com rock em uma linguagem soundsystem.

Com guitarra baiana, cavaquinho e bandolim distorcidos e muitos efeitos sobre guitarras, a música é o rock mais pesado do disco e gera momentos de catarse nas apresentações: não à toa, a música ganhou um clipe ao vivo, transferindo pra tela toda a energia do show.

Quer saber mais sobre a canção? Então vem conferir nossa análise e entender o significado de Roda!

A inspiração por trás de Roda

Escrita por Pitty em parceria com Roberto Barreto e Russo Passapusso, dupla criativa do BaianaSystem, a canção surgiu de uma vontade da cantora de escrever sobre a euforia sentida quando se está na plateia de um show.

Segundo depoimento exclusivo enviado pela cantora ao Letras, “a ideia desse texto pintou a partir de uma junção de sentimentos e referências que dialogavam entre si”. E é com base no texto da Pitty que faremos a nossa análise! Vem ver:

Análise verso a verso de Roda

Você pode até latir, você pode até bradar
Você pode coibir que eu não vou me abalar
Só não mexa no meu jeito de dançar

Como dito pela cantora, a letra de Roda traz várias referências. Embora a inspiração inicial tenha sido a roda de pogo, parte da cultura punk rock, a ideia da roda em si tem um significado mais amplo. 

Roda de pogo
Roda de pogo / Créditos: Fernanda Chemale

Fui traçando esse paralelo; o transe da gira nas religiões de matriz africana, os rodopios hipnotizantes dos derviches na Turquia, as danças indígenas que se dão em círculos. Esse movimento circular, o que vai e volta, de eterno final e começo; é muito simbólico e extremamente ligado aos sagrados de todos os tipos. É o ciclo da natureza, das marés, da lua, do feminino.”

Musicalmente falando, é possível entender essa pontuação como uma afirmação de orgulho da cena alternativa e hardcore, que existe e resiste mesmo dentro de um meio que torce o nariz para ela — como era comum acontecer na Bahia dos anos 90, época em que Pitty começou sua carreira.

Pitty no início da carreira
Créditos: Divulgação

Já em um sentido mais espiritual, podemos ver o trecho como uma manifestação de resistência de culturas, rituais e religiões que costumam ser alvo de intolerância, principalmente as indígenas e as de matriz africana.

Essa roda nos abraça, essa gira é pra girar
É só chegar no barracão que o couro vai dobrar
Só não mexa no meu jeito de dançar
Só não mexa

A estrofe acima reforça o sentido espiritual: isso porque aparecem vários termos ligados às religiões de matriz africana como gira, barracão e dobrar o couro.

Para quem desconhece, gira tem relação com a gira de umbanda, a roda que os fiéis fazem para entrar em contato com o divino. Barracão é o lugar onde as giras acontecem, também chamado de casa ou terreiro.

Gira de Umbanda
Créditos: Divulgação

dobrar o couro tem a ver com uma prática do candomblé. É o repique que é tocado no atabaque quando visitas ilustres chegam ao terreiro, como forma de dar as boas-vindas.

Apesar do simbolismo relacionado à cultura e às religião negras, os versos passam uma mensagem de acolhimento mais ampla: serão bem-vindos todos que queiram se juntar à roda, seja ela qual for. Essa ideia é sustentada pelo depoimento de Pitty:

“As peles se encontrando, o suor, o respeito a quem está do lado, os movimentos vigorosos que, para quem está de fora, muitas vezes parece briga; mas quem está dentro sabe que é só amor. Gente diferente unida pela música. Isso é uma roda de pogo, e isso é também o que se dá em muitos rituais de culturas diversas.”

Pode olhar atravessado
É nosso jeito de expressar
Quando se entra na roda, pai
Ninguém quer parar

Voltando ao tom inicial, mais uma vez a letra reforça a confiança de quem não se abala com críticas preconceituosas. Aqui vale também adicionar uma terceira interpretação: o orgulho de ostentar a cultura e as raízes nordestinas. 

Já os versos Quando se entra na roda, pai, ninguém quer parar remetem também à ideia original da adrenalina de fazer parte de uma roda de pogo. Segundo Pitty:

“Estava com vontade de escrever sobre a sensação poderosa de coletivo quando se está na plateia de um show, os movimentos livres, o quanto esse momento pode ser catártico. Já vivi isso na pele em muitas rodas de pogo e pensei também no público que nos acompanha e que vejo lá de cima do palco.”

A droga da moda muda e ninguém te acode quando o povo julga
A bola da vez é um plano de fuga pra não te encontrar na madruga
É o caso do rei que domina essa lei que nós temos no nosso lugar
É o caso do cabo de guerra que sempre arrebenta no mesmo lugar
Eu preciso falar dessa nossa verdade que vem do nordeste
Pra criança da rua, a mulher da cidade, pro cabra da peste

Cantada e co-escrita por Russo Passapusso, a estrofe acima confere camadas metafóricas à letra, que podem ser entendidas como uma forma de crítica social e cultural.

Russo Passapusso
Créditos: Divulgação

Ela pode se referir, por exemplo, ao preconceito e à falta de apoio que artistas alternativos, principalmente os de fora do eixo Rio-SP, enfrentam ao tentar alcançar o mainstream, já que a indústria musical prefere apostar em modas passageiras.

Afinal, há um rei — ou seja, alguém que tem o poder de decisão — ditando as regras do jogo. E é sempre o lado considerado mais fraco que encontra as maiores dificuldades de vencer esse cabo de guerra.

Já na perspectiva do orgulho nordestino, o artista afirma sua intenção de mostrar que a cultura do Nordeste não pode ser resumida a preconceitos e estereótipos: ela é muito mais diversa e merece ser conhecida de verdade por todos.

Roda, gira
Gira na roda

A respeito da parceria com o compositor, Pitty comentou: 

“Quando sentei com Russo e mostrei minha parte da letra, ele imediatamente sentiu um feeling parecido e surgiu com palavras e frases que completavam lindamente e que ainda abria mais possibilidades de interpretação.”

Ela também falou da inspiração de ver um show da banda:

“E, também, o próprio BaianaSystem é uma das bandas hoje em dia que tem a roda mais linda e energética. Ver um show ao vivo dos caras também foi uma baita inspiração para escrever essa letra.”

Eu preciso falar dessa nossa verdade que vem do nordeste
Nunca é tarde demais

Vale mencionar que em suas músicas, o BaianaSystem faz questão de valorizar as raízes baianas, exaltando a história e a cultura da Bahia sob um ponto de vista, principalmente, negro e periférico.

Pode olhar atravessado (mas vê se muda)
É nosso jeito de expressar
Quando se entra na roda, pai
Ninguém quer mais
Pode olhar atravessado (mas vê se muda)
É nosso jeito de expressar
Quando se entra na roda, pai
Ninguém quer parar

Aqui a letra já traz uma provocação pra quem torce o nariz pro jeito dos artistas se expressarem: vê se muda!

Ou seja, esse preconceito — seja com o hardcore, o Nordeste ou culturas diversas — já está ultrapassado, não cabe mais.

Roda, gira
Nunca é tarde demais

A música termina com o verso Nunca é tarde demais, fazendo uma ligação com a faixa que vem em seguida, Azul, uma vinheta na qual Pitty declama: Nunca é tarde demais pra voltar pro azul que só tem lá

Assim, Roda pode ser entendida como uma canção que se relaciona diretamente com a trajetória de Pitty: as origens nordestinas, a cultura hardcore e o movimento circular de quem parte, mas acaba retornando às suas raízes.

Próximos passos de Pitty

Dona de um repertório recheado de letras e de frases marcantes, Pitty é reconhecida como um um dos principais nomes do rock nacional. Seu primeiro álbum, Admirável Chip Novo (2003), rendeu grandes sucessos como Máscara, Equalize e Teto de Vidro.

Atualmente, a cantora se divide entre a apresentação da nova temporada do Saia Justa, no GNT, e a turnê de seu mais recente álbum, Matriz. Além disso, ela prepara o lançamento do registro ao vivo do novo show, gravado em Salvador em 2019. 

Pitty no Saia Justa
Pitty no Saia Justa / Créditos: Divulgação

Pitty: um ícone feminista

Gostou de saber mais sobre Roda? Então aproveita para conferir nossa análise da música Desconstruindo Amélia, grande hino feminista da Pitty!

Análise da música Desconstruído Amélia