A voz da liberdade: a biografia de Angela Ro Ro, ícone da MPB e ativista LGBTQIAPN+

Nascida no Rio de Janeiro, a cantora e compositora, que faleceu em setembro de 2025 aos 75 anos, deixou um legado de talento e irreverência. Conheça a história de Angela Ro Ro!

Biografias · Por Ana Paula Marques

9 de Setembro de 2025, às 13:54


A biografia de Angela Ro Ro está imortalizada na história da música brasileira como a de um ícone de talento, irreverência, personalidade e liberdade, muito além da voz rouca inconfundível.

Dona de sucessos como Amor, Meu Grande Amor e Escândalo, Angela trabalhou com grandes nomes, como Maria Bethânia e Marina Lima, lançou mais de dez álbuns e se manteve como referência de autenticidade artística.

Angela Ro Ro
Reprodução / Instagram

Ela também foi símbolo de coragem ao assumir sua sexualidade em um período conservador, foi pioneira na representatividade LGBTQIAPN+ no Brasil e sua obra permanece como legado de resistência.

Na última segunda-feira, 8 de setembro de 2025, Angela faleceu aos 75 anos, no Rio de Janeiro, onde estava hospitalizada desde junho.  Relembre a história de Angela Ro Ro!

Quem foi Angela Ro Ro: biografia da voz marcante da MPB

Oficialmente chamada Angela Maria Diniz Gonsalves, a cantora era filha de uma enfermeira e um policial civil, e nasceu em 5 de dezembro de 1949, na Vila Isabel, no Rio de Janeiro.

A revista Rolling Stone a incluiu em sua lista de 100 Maiores Vozes da Música Brasileira, na 33ª posição, e ela foi também uma compositora de mão cheia, autora de clássicos eternizados não apenas em sua voz, mas também na de artistas como Maria Bethânia.

Angela lançou mais de dez discos e mais de 80 canções autorais, além de também ser lembrada por sua personalidade autêntica e corajosa, se posicionando abertamente como mulher lésbica e pioneira na representatividade LGBTQIAPN+ na música brasileira.

A artista enfrentava uma grave infecção pulmonar, com muitas complicações ao longo dos meses, e passou por procedimentos como uma traqueostomia. Recentemente, após uma nova infecção, ela não resistiu, deixando fãs em luto e um legado musical primoroso.

As origens de Angela Ro Ro

Desde os primeiros capítulos, a biografia de Angela Ro Ro é envolta em música. Ela começou a exercitar seu talento desde cedo, e aos 5 anos já estudava piano clássico.

O interesse precoce pela música foi alimentado pela admiração por grandes nomes como Ella Fitzgerald, Maysa, Jacques Brel e Elis Regina, que se tornariam inspirações permanentes em sua trajetória.

Ela ganhou o apelido “Ro Ro” quando ainda era pequena, resultado de sua risada inconfundível e sua voz grave. O apelido carinhoso acabaria se tornando parte da identidade artística de Angela, acompanhando-a por toda a vida.

A juventude na Europa e o começo da carreira

No início da década de 1970, Angela partiu para a Europa em busca de amadurecimento artístico. Viveu primeiro na Itália e conheceu o cineasta Glauber Rocha. Depois, foi para a Inglaterra, onde se sustentava trabalhando como faxineira, garçonete e lavadora de pratos.

Mesmo em meio às adversidades, Angela não abandonou a música. Passou a se apresentar em pubs londrinos e já compunha suas primeiras canções — inicialmente em inglês.

Nesse período, foi apresentada por Glauber Rocha a Caetano Veloso, que estava em exílio na Inglaterra depois de ser preso pela ditadura militar. Em 1971, a convite de Caetano, Angela participou do álbum Transa, obra hoje considerada cultuada dentro da MPB.

Ela tocou gaita em Nostalgia (That’s What Rock’n Roll Is All About), dividindo o estúdio com nomes como Jards Macalé, Áureo de Souza Martins e Tutty Moreno.

 Ainda na década de 1970, Angela Ro Ro tomou uma decisão histórica: assumiu sua homossexualidade em plena ditadura. Esse gesto, além de coragem pessoal, transformou-a em pioneira da representatividade LGBTQIAPN+ no Brasil.

Os sucessos de uma carreira “escandalosa”

Angela voltou ao Brasil no final dos anos 1970, tocando em festivais e casas noturnas. Pouco tempo depois, assinou contrato com a gravadora Polydor (atual Universal Music), que lhe abriu as portas para o grande público.

O álbum de estreia, Angela Ro Ro (1979), é considerado até hoje um clássico da MPB, com composições próprias como Amor, Meu Grande Amor e Balada da Arrasada.

O trabalho chamou atenção pelo frescor poético e pela autenticidade, revelando ao Brasil uma artista que cantava as dores e delícias do amor por meio de um olhar feminino, em uma época de grande transformação cultural.

Em 1980, Ro Ro lançou seu segundo disco, Só Nos Resta Viver, que vendeu mais de 800 mil cópias. Ela passou a ser convidada para programas como o especial Mulher 80, da Globo, onde conheceu Elis Regina, que manifestou interesse em gravar suas canções.

No ano seguinte, lançou Escândalo, que incluía a canção homônima escrita por Caetano Veloso especialmente para ela. No álbum seguinte, mostrou outra faceta com Simples Carinho (João Donato e Abel Silva), um de seus maiores sucessos.

Mas ela era seletiva em relação a seu repertório. Angela recusou gravar a música Malandragem — oferecida por Cazuza e Frejat, e imortalizada por Cássia Eller — porque não se identificava com a letra, que começava com a palavra “garotinha”.

A história da música Malandragem, sucesso na voz de Cássia Eller

Um estilo “escandaloso” para mostrar talento

A sonoridade de Angela Ro Ro sempre foi marcada pela mistura de gêneros. Sua base vinha do piano clássico, mas sua paixão pelo blues e pelo samba-canção moldou a originalidade de sua obra.

A voz rouca e visceral foi sua marca registrada, capaz de imprimir intensidade em qualquer interpretação.

Mas Angela foi além da música: foi uma das primeiras artistas brasileiras a se assumir publicamente lésbica, enfrentando lesbofobia e preconceito em um período em que o silêncio era a regra.

Sua postura desconcertantemente honesta — nos palcos, nas entrevistas e em sua obra — abriu caminhos para uma nova geração de cantoras e compositoras que hoje reconhecem sua importância como pioneira.

Os últimos anos da biografia de Angela Ro Ro

Nos últimos anos de sua vida, a biografia de Angela Ro Ro foi repleta de altos e baixos, sem nunca deixar de lado sua relação intensa com a música e com os fãs.

Após lançar em 2017 o álbum Selvagem, com repertório inédito, a artista passou a se dedicar a apresentações menores e intimistas, muitas vezes apenas ao piano ou acompanhada pelo músico Ricardo Marc Cord.

A pandemia de Covid-19 trouxe grandes dificuldades financeiras. Com os shows suspensos, Angela recorreu às redes sociais para pedir ajuda e chegou a realizar lives de arrecadação, buscando alternativas para seguir ativa.

Em 2023, foi anunciada no Coala Festival, em São Paulo, mas precisou cancelar a apresentação horas antes de subir ao palco, por problemas de saúde.

No mesmo ano, emocionou os fãs ao participar dos shows de Caetano Veloso, que revisitou o histórico álbum Transa no Rio de Janeiro, e em 2024, viveu um momento de renovação ao lançar dois singles autorais: o samba Cadê o Samba? e a balada Planos do Céu.

Fragilidade de saúde e dificuldades financeiras

Se artisticamente mantinha seu brilho, a realidade pessoal de Angela era marcada por desafios.

Ela revelou viver em condições financeiras delicadas, sobrevivendo com pouco mais de R$ 800 mensais, sem aposentadoria e com uma conta bancária bloqueada, pedindo apoio dos fãs para custear despesas médicas e de manutenção.

Sua saúde, já fragilizada, começou a se agravar de forma significativa em 2025. Em junho, foi hospitalizada em estado grave no Hospital Silvestre, no Rio de Janeiro, com uma infecção pulmonar que rapidamente evoluiu para complicações sérias.

Durante a internação, chegou a ficar 21 dias na UTI, passando por intubação, traqueostomia e hemodiálise. Apesar de todos os esforços médicos, Angela sofreu uma parada cardíaca em setembro de 2025 e não resistiu.

Angela Ro Ro se despediu como viveu: até o fim, foi personagem do próprio “grande escândalo” que a acompanhou por toda a vida — o de ter ousado existir e amar de forma plena em uma sociedade que tantas vezes tentou silenciá-la.

Relembre Mônica, um dos maiores hits da biografia de Angela Ro Ro

A biografia de Angela Ro Ro é cheia de clássicos que emocionam. Por isso, não deixe de conferir a história de Mônica, música de sucesso da Angela Ro Ro!

Significado: Mônica, de Angela Ro Ro

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