Entenda o significado da música Gita, de Raul Seixas

Analisando letras · Por Érika Freire

30 de Janeiro de 2020, às 06:30

O rock and roll de Raul Seixas foi construído à base de muito misticismo, através da influência de líderes ocultistas e até de filósofos importantes.

O resultado foi a criação de músicas marcantes com significados capazes de fazer a nossa cabeça girar. A música Gita é uma dessas que trazem significados e visões diferentes.

A bela melodia se encontra com a letra poética e um tanto emblemática, característica que faz com que os fãs do maluco beleza se emocionem até hoje.

Vamos mergulhar juntos no significado de Gita e analisar a letra? Bora lá!

Significado da música Gita

Para alguns, um doido, para outros, um gênio. E por que não os dois?

Somente Raul Seixas poderia escrever uma música como Gita, cuja inspiração veio do livro Bhagavad Gita, conhecido como um dos mais importantes textos da cultura indiana, escrito no século 4 antes de Cristo.

A obra fala sobre quais seriam os caminhos para o homem evoluir espiritualmente, apresentados através de um diálogo entre Krishna, a representação de Deus, e Arjuna, um discípulo guerreiro.

Representação de Krishna e Arjuna
Representação de Arjuna e Krishna / Créditos: Divulgação

Raul tirou a inspiração para compor a letra de Gita ao lado de Paulo Coelho, do trecho onde Arjuna pergunta à Krishna quem seria ele. Ou seja, como o povo hindu poderia compreender quem é Krishna (Deus)?

De sua resposta, veio boa parte da inspiração para criar Gita. Krishna teria dito: Entre as estrelas sou a lua… entre os animais selvagens sou o leão… dos peixes eu sou o tubarão…. de todas as criações eu sou o início e também o fim e também o meio.

Representação de Krishna e Arjuna
Representação de Krishna e Arjuna / Créditos: Divulgação

A letra foi composta em 1974 e faz parte do álbum homônimo, lançado no mesmo ano, que se tornou o trabalho de maior sucesso da carreira do Maluco Beleza.

Agora vamos juntos analisar trecho a trecho a música?

Análise da música Gita

Gita começa com Raul anunciando que boa parte da sua busca pela evolução espiritual e da consciência era feita perambulando pelo mundo. 

Porém, foi através de um sonho que Ele, com escrita em maiúscula, sugerindo assim uma divindade, lhe falou. Ou seja, revelou alguns caminhos.

Caminhos
Créditos: Divulgação

Eu, que já andei pelos quatro cantos do mundo procurando
Foi justamente num sonho que Ele me falou

As duas estrofes seguintes nos levam a uma interpretação ambígua.

Vale lembrar que isso é absolutamente normal, uma vez que toda composição ou obra artística permite que cada um faça uma interpretação a partir de suas próprias percepções e vivências.

Às vezes você me pergunta
Por que é que eu sou tão calado
Não falo de amor quase nada
Nem fico sorrindo ao teu lado

Este trecho pode ser interpretado como uma reflexão sobre o próprio Raul e o seu modo de ser, mas também pode ser visto como a divindade se manifestando em um diálogo: o Deus onipresente, calado e ausente.

Você pensa em mim toda hora
Me come, me cospe, me deixa
Talvez você não entenda
Mas hoje eu vou lhe mostrar

Este trecho também tem a mesma ambiguidade do anterior, pois pode ser lido com um certo sentimento de raiva, como alguém reclamando sobre o quanto é usado: me come, me cospe, me deixa.

Eu sou a luz das estrelas
Eu sou a cor do luar
Eu sou as coisas da vida
Eu sou o medo de amar

Aqui observamos que Raul opta por usar, em boa parte da letra de Gita, o termo eu sou, que hoje é muito difundido por algumas correntes esotéricas e espiritualistas como uma forma de manifestar Deus em nós mesmos.  

Podemos compreender, no significado de Gita, o termo sendo utilizado com bastante ênfase e repetição, dando a entender que somos a conexão com tudo o que existe, as estrelas, o universo, o amor. 

Podemos ser fortes e ao mesmo tempo fracos, como Raul sugere ao falar sobre o medo de amar, algo tão comum em nossa sociedade.

Eu sou o medo do fraco
A força da imaginação
O blefe do jogador
Eu sou, eu fui, eu vou

Ele continua com a mesma linha de raciocínio, sugerindo que o ser humano tem medo de ser fraco. Porém, ao se permitir e reconhecer a sua força interna, ele se liberta através da imaginação.

Eu sou o seu sacrifício
A placa de contramão
O sangue no olhar do vampiro
E as juras de maldição

Outra forma de ver a canção, especialmente por este trecho, é como se Deus estivesse respondendo quem ele realmente é.

Eu sou a vela que acende
Eu sou a luz que se apaga
Eu sou a beira do abismo
Eu sou o tudo e o nada 

A letra sugere uma conexão a respeito da forma como nós costumamos buscar Deus.

Cada um costuma fazer a sua conexão com Deus de acordo com a sua religião, mas a letra de Gita diz que Deus é você, e ele está em tudo.

Por que você me pergunta?
Perguntas não vão lhe mostrar
Que eu sou feito da terra
Do fogo, da água e do ar

Essa interpretação ganha força neste trecho, onde Raul e Paulo Coelho falam sobre as indagações.

Por que você me pergunta quem é Deus? Questionar não teria qualquer tipo de efeito. É preciso sentir a presença divina através dos elementos, como fogo, água e ar.

Você me tem todo dia
Mas não sabe se é bom ou ruim
Mas saiba que eu estou em você
Mas você não está em mim

Das telhas, eu sou o telhado
A pesca do pescador
A letra A tem meu nome
Dos sonhos, eu sou o amor

Apesar de não responder à prece de Raul, que nessa letra podemos interpretar como uma representação de todos nós, Krishna diz que está em todos os momentos, inclusive nos objetos mais estranhos. 

Eu sou a dona de casa
Nos pegue-pagues do mundo
Eu sou a mão do carrasco
Sou raso, largo, profundo
(Gita! Gita! Gita! Gita! Gita!)

É importante analisarmos também a própria palavra. Gita, que Raul repete em alguns trechos, vem do Bhagavad Gita, que significa Canção de Deus

Não existe distinção entre as funções que cada um desempenha na sociedade, nem importa o local onde se está agora. Deus pode ser acessado em qualquer lugar, mas sempre dentro de você mesmo.

Eu sou a mosca da sopa
E o dente do tubarão
Eu sou os olhos do cego
E a cegueira da visão

Eu, mas eu sou o amargo da língua
A mãe, o pai e o avô
O filho que ainda não veio
O início, o fim e o meio
O início, o fim e o meio
Eu sou o início, o fim e o meio
Eu sou o início, o fim e o meio 

As estrofes finais de Gita deixam isso bem claro ao mencionar eu sou o início, o fim e o meio. Lembre-se que, no início da música, logo na primeira estrofe, temos Raul afirmando que Deus falou com ele através de um sonho.

Nas demais estrofes, vemos representações, respostas de quem seria Deus e de como nós poderíamos compreender essa força.

A canção parece explicar sobre como deveríamos reconhecer Deus. Não que isso se torne fácil, uma vez que exige uma transformação do ego, passando pela busca do despertar da consciência para enxergar a nossa própria luz. É um caminho individual.

O contato com a nossa essência parece ter sido complicado ainda mais pelas instituições religiosas, que fizeram com que o ser humano precisasse de meios para se alcançar o fim, quando na verdade não é bem assim, como sugere a letra de Gita.

E você, o que acha? 

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