Análise do samba-enredo da Acadêmicos de Niterói 2026, uma homenagem ao presidente Lula 

Analisando letras · Por Karoline Póss

3 de Fevereiro de 2026, às 11:26


Fundada em 2018, a Acadêmicos de Niterói chega ao Grupo Especial do Carnaval do Rio de Janeiro em 2026. Seu desfile de estreia carrega um samba-enredo de homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Créditos / Divulgação

O samba-enredo da Acadêmicos de Niterói já circula nas redes sociais e tem gerado grande repercussão dentro e fora da avenida, com a proposta de retratar, de forma simbólica, a história de origem humilde à atuação política do presidente Lula, unindo memória, crítica social e espetáculo na Sapucaí. 

Confira a análise completa do samba-enredo da Acadêmicos de Niterói 2026 e entenda o desfile que transformou a trajetória de Lula em enredo de Carnaval. 

O significado do samba-enredo da Acadêmicos de Niterói 2026

O título do enredo, Do Alto do Mulungu Surge a Esperança: Lula, o Operário do Brasil, faz referência à trajetória de Lula desde sua infância humilde à atuação política, como líder sindical e presidente da República.

Começa com citação à árvore de mulungu, uma planta nativa brasileira presente no agreste de Pernambuco, onde Lula passou a infância, e parte para a ideia de esperança e superação levantada por sua ascensão política. 

A árvore simboliza, ainda, essa raiz de esperança e resistência, sendo uma planta que consegue prosperar em meio às adversidades da seca e solo degradado. 

A letra da música também reflete a história. Em sua primeira estrofe, narra sua origem em Garanhuns, cenário marcado por pobreza, pranto e fome para tantos – enquanto a riqueza multiplica para alguns, já caracterizando-se como crítica social

O trecho traz a voz poética de Dona Lindu, mãe de Lula, que via os olhares tristes e famintos de seus filhos e partiu com eles rumo a São Paulo em busca de melhores oportunidades — assim como tantas outras famílias que migraram do Nordeste para o Sudeste entre as décadas de 1950 e 1980, marcando um dos maiores movimentos populacionais da história do Brasil.      

Com o peito em pedaços

Parti atrás do amor e dos meus sonhos

Peguei os meus meninos pelos braços

Brilhou um Sol da pátria incessante

Pro destino retirante

Te levei, Luiz Inácio

Nos próximos blocos, o salto narrativo leva a trajetória aos seus dias como metalúrgico, enfatizando a luta sindical e como este momento foi importante para a construção de sua liderança política. 

Vi a esperança crescer e o povo seguir sua voz

Revolucionário é saber escolher os seus heróis

Embora Lula seja a figura central do enredo, o samba traz neste trecho uma liderança coletiva, onde a voz do povo entra em cena. A memória da ditadura militar também se faz presente na menção a Zuzu Angel, Henfil, Vladimir Herzog e Rubens Paiva, figuras históricas que, com sua luta, construíram um ideal democrático. 

Nos trechos seguintes, a atuação política de Lula ganha foco, com referências diretas a conquistas de seu governo como a expansão do ensino superior e o combate à fome

É, tem filho de pobre virando doutor

Comida na mesa do trabalhador

Com o verso Sem mitos, sem anistia, invoca debates políticos recentes na presença do termo mito, associado ao ex-presidente Jair Bolsonaro por seus apoiadores, e os acontecimentos de 8 de janeiro de 2023, com o samba retratando sua busca por responsabilidade histórica.  

Ao longo da música, nota-se ainda referências simbólicas associadas ao Partido dos Trabalhadores, como a estrela e o número 13, presentes nos versos eu vi brilhar a estrela de um país e por ironia, treze noites, treze dias.

Aliado ao tom de esperança que o samba mobiliza, a letra carrega elementos da religiosidade católica, expressos em trechos que citam a fé em Santa Luzia, São José e em Deus Pai, que abraçam a herança religiosa da família de Lula e do país. 

Composição coletiva 

Do alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil é resultado da colaboração de vários compositores importantes do samba carioca, que uniram sua expertise no gênero para construir a obra. 

São creditados Teresa Cristina, André Diniz, Paulo Cesar Feital, Fred Camacho, Junior Fionda, Arlindinho, Lequinho, Thiago Oliveira e Tem-tem Jr. A voz é de Emerson Dias, intérprete de samba-enredo que já cantou Hutukara e Xangô para a Salgueiro em 2024 e 2019, respectivamente.

Repercussão e cuidados extras 

A homenagem ao político por si só não é considerada campanha política, mas levanta debate por ser ano eleitoral, com Lula concorrendo ao quarto mandato em 2026. Com grande repercussão na mídia e entre o público, o samba-enredo da Acadêmicos de Niterói recebeu reações diversas.

Foto: Ricardo Stuckert / PR

De um lado, os foliões celebram a escolha por reafirmar o Carnaval como um espaço de crítica social e debate político, com resgate à história do Brasil e da luta coletiva da classe trabalhadora – presente na trajetória de Lula como o “Operário do Brasil”. 

Por outro, o samba recebeu críticas da oposição por ser interpretado como posicionamento partidário. Alguns setores do público também argumentam que associações diretas a disputas políticas atuais deveriam ser evitadas, expandindo o debate para os limites entre arte, política e espaço público.  

Tratando-se de um tema politicamente sensível, a escola Acadêmicos de Niterói adotou uma postura mais cautelosa para a apresentação na avenida, orientando que os integrantes evitem gestos políticos específicos, como “fazer o L”, que pode caracterizar propaganda eleitoral antecipada. 

Acadêmicos de Niterói desfila que dia? 

O desfile de estreia da Acadêmicos de Niterói com sua homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva acontece no dia 15 de fevereiro de 2026, domingo, a partir das 22h

Origem dos sambas-enredo 

Descubra a origem dos sambas-enredo, a alma dos desfiles das escolas que contam histórias e fazem manifestações culturais e políticas através do samba — e como isso se tornou um símbolo do Carnaval.  


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