Samba-enredo da Mangueira 2026 celebra Mestre Sacaca

Analisando letras · Por Ana Paula Marques

10 de Fevereiro de 2026, às 14:27


A Estação Primeira de Mangueira volta à Marquês de Sapucaí em 2026 com uma proposta que desbrava novas fronteiras da identidade brasileira.

Em vez de revisitar personagens já consagrados do eixo Rio–Sudeste, a escola olha para o extremo norte do país e coloca a Amazônia negra no centro da avenida com o enredo Mestre Sacaca do Encanto Tucuju – O Guardião da Amazônia Negra

Mangueira 2026 samba-enredo
Foto / Divulgação

O tema celebra a vida, a fé e os saberes populares de Raimundo dos Santos Souza, curandeiro e liderança cultural do Amapá, unindo memória, espiritualidade e resistência comunitária em um samba que valoriza ervas, rios, tambores e ancestralidade. 

Significado do samba-enredo da Mangueira 2026

Raimundo dos Santos Souza nasceu no Amapá, em 1926. Negro e indígena, cresceu cercado por tradições populares e ficou conhecido como Mestre Sacaca, título associado a práticas de cura e espiritualidade.

Ele dominava a medicina tradicional e ficou conhecido por tratar diversas doenças da comunidade. Por isso, recebeu o apelido de “doutor da floresta”.

Raimundo dos Santos Souza, conhecido como Mestre Sacaca / Foto: Blog Porta Retrato-AP

Por que a Mangueira escolheu essa história?

Ao homenagear Sacaca, a Mangueira amplia o mapa do Carnaval carioca e coloca o Norte no centro do debate.

O tema também inaugura o ciclo do centenário da escola. Ao completar cem anos, a verde e rosa reafirma sua vocação de contar histórias do Brasil de forma mais profunda.

Análise do samba-enredo Mangueira 2026

Na letra, o ouvinte é transportado para dentro da floresta, dos rituais e das memórias coletivas do Amapá, até que esse universo se encontra com o morro da Mangueira.

Finquei minha raiz

No extremo norte onde começa o meu país

As folhas secas me guiaram ao Turé

Pintada em verde-e-rosa, jenipapo e urucum

Árvore-mulher, Mangueira quase centenária

Uma nação incorporada

A palavra “raiz” sugere origem e pertencimento. É lugar de nascimento, e a Mangueira assume aquela terra como parte de si.

As imagens de “folhas secas”, “turé”, “jenipapo” e “urucum” levam a natureza e os rituais indígenas à narrativa de forma orgânica. A identidade mangueirense passa a dialogar diretamente com a Amazônia.

Ancestralidade afro-indígena como base do enredo

Herdeira quilombola, descendente Palikur

Regateando o Amazonas no transe do caxixi

Corre água, jorra a vida do Oiapoque ao Jari

O samba junta duas matrizes de resistência: a negra e a indígena. Quilombo e aldeia deixam de ser referências separadas e formam uma só linhagem, ajudando a conhecer o Mestre Sacaca.

O curandeiro como símbolo de cuidado coletivo

Salve o curandeiro, doutor da floresta

Preto Velho, saravá

Macera folha, casca e erva

Engarrafa a cura, vem alumiar

Defuma folha, casca e erva, saravá

Mestre Sacaca se tornou curandeiro porque sua comunidade confiava nele. O enredo destaca essa história para o público entender quem ele foi e por que merece a homenagem.

Ritmo, fé e resistência cultural

Negro na marcação do marabaixo

Firma o corpo no compasso

Com ladrões e ladainhas que ecoam dos porões

Ergo e consagro o meu manto

O marabaixo é o principal movimento cultural e religioso de matriz africana do estado do Amapá.

O trecho é uma forma de mostrar que cultura popular também é política. Manter o marabaixo vivo é preservar a história de um povo.

No barro, fruto e madeira, história viva de pé

Quilombo, favela e aldeia na fé

O quilombo lembra o passado de luta contra a escravidão, a aldeia remete às origens indígenas e a favela traz o presente urbano. É um resumo do Brasil periférico.

O encontro entre o Amapá e a Mangueira

Yá, Benedita de Oliveira, mãe do Morro de Mangueira

Abençoe o jeito Tucuju

Benedita de Oliveira, conhecida como Tia Fé, foi uma das responsáveis pela consolidação do samba e pela fundação da Estação Primeira de Mangueira. “Tucuju” é um termo que se refere a um dos primeiros grupos indígenas do norte do Brasil.

Ao pedir que Benedita “Abençoe o jeito Tucuju”, o samba pede que ela olhe pelo povo amapaense.

A história dos sambas-enredo

Se você quer se aprofundar e entender a estrutura por trás dessas composições, leia mais sobre como surgiram os sambas-enredo, símbolo da cultura brasileira. 


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