27 de Fevereiro de 2025, às 15:00
O samba-enredo da Paraíso do Tuiuti 2025 já se mostra transgressor, antes mesmo da escola carioca entrar na avenida. A agremiação irá contar a história da primeira travesti da história do Brasil, Xica Manicongo.

A escola de São Cristóvão, zona norte do Rio, conquistou o nono lugar no Carnaval do ano passado, mas promete fazer história em 2025 com o enredo Quem Tem Medo de Xica Manicongo?
Composto por Claudio Russo e Gustavo Clarão, o samba-enredo levará, para a Marquês de Sapucaí, a força e a resistência de um ser humano que quase foi queimado vivo pelo Tribunal da Santa Inquisição, em Salvador.
Quer saber mais sobre essa história e conferir a análise do samba-enredo Paraíso do Tuiuti 2025? Vem com a gente!
Provando que é uma escola de samba comprometida com enredos de relevância social e histórica, a Paraíso do Tuiuti irá contar a história de Xica Manicongo, considerada a primeira mulher trans documentada no Brasil.
O tema foi desenvolvido pelo carnavalesco Jack Vasconcelos e resgata uma história que ocorreu em Salvador, no final do ano de 1500.
Na época, seu nome era Francisco Manicongo, contudo, pesquisadoras travestis, após mergulharem em sua história, decidiram chamá-la de Xica Manicongo. Ela nasceu no Congo e foi levada para Salvador para ser escravizada.
Imagine no século 16 não se submeter aos modos e costumes que a sociedade considerava como corretos? Xica se recusava a usar roupas masculinas e acabou perseguida pela Inquisição.
Chegou a ser documentada como um homem homossexual e, somente em 2000, foi classificada como travesti pela ativista Marjorie Marchi . Com isso, a comunidade de travestis e transexuais passou a ver Xica Manicongo como um exemplo de força e resistência.
Quando chegou em Salvador, Xica foi vendida para um sapateiro que tentou mantê-la dentro dos “padrões normativos”. Alguns detalhes sobre a vida de Xica Manicongo foram descritos na sinopse do enredo, apresentada pela Paraíso do Tuiuti.
Como se não bastasse ter sido retirada de seu país de origem, foi tratada como mercadoria e teve seu nome africano perdido em cadernos de anotações que escrituravam o roubo da liberdade, como explica a sinopse.
Por não obedecer as rédeas do “cis-tema”, foi acusada de fazer parte de uma quadrilha de feiticeiros sodomitas. Chegou a ser julgada pelo Tribunal do Santo Ofício da Inquisição, sendo condenada a morrer queimada viva.
Para escapar da pena cruel da igreja, precisou abrir mão da sua forma feminina de se expressar e começou a usar roupas consideradas masculinas, adotando assim um estilo de vida tradicional dos homens da época.
Claudio Russo e Gustavo Clarão são os criadores por trás do samba-enredo da Paraíso do Tuiuti 2025. Os compositores trabalharam em conjunto com o carnavalesco Jack Vasconcelos.
Durante entrevistas de divulgação do enredo, Jack Vasconcelos explicou que o
processo de montagem do samba-enredo foi feito praticamente junto com a montagem estética da escola.
Desde os desenhos até o complemento da pesquisa sobre Xica Manicongo, tudo foi sendo construído através de uma troca muito rica entre Jack e os compositores Cláudio Russo e Gustavo Clarão.
Exatamente por conta dessa troca de ideia e de experiências constantes, o carnavalesco sentiu que o samba-enredo seria a extensão de tudo o que eles vinham fazendo.
“Passamos pelos mesmos processos de pesquisa e experiência, inclusive espirituais, para montar o enredo juntos, fomos como irmãos descobrindo a história da Xica”
O samba-enredo da Paraíso do Tuiuti em 2025 se traduz em resistência e grito pela liberdade de ser quem se é. Ao resgatar a memória de uma travesti negra escravizada no Período Colonial, a escola dá voz a todas as travestis silenciadas ao longo dos anos, assim como aconteceu com Xica.
Com uma letra densa, carregada de simbolismos e referências históricas, o samba-enredo não apenas presta uma homenagem, mas conscientiza que a luta contra qualquer tipo de opressão é um dever de todos.
Nos primeiros versos, há uma mistura de tom poético e protesto. A letra condena o julgamento dos atos pessoais de Xica. Somente ela própria poderia ser capaz de conhecer sua forma de expressão, de habitar o mundo e seus desejos.
O samba também apresenta Xica como um ser múltiplo, como se diversos “eus” habitassem seu corpo.
Só não venha me julgar Ô
Pela boca que eu beijo
Pela cor da minha blusa
E a fé que eu professar
Não venha me julgar
Eu conheço o meu desejo
Este dedo que acusa
Não vai me fazer parar
Faz tempo que eu digo não
Ao velho discurso cristão
Sou Manicongo
Há duas cabeças em um coração
São tantas e uma só
Eu sou a transição
Carrego dois mundos no ombro
A letra resgata as origens de Xica para que a sua identidade seja lembrada enquanto uma mulher preta e com sua fé baseada nas religiões africanas. O termo “Ganga” significa um
herbalista ou uma espécie de curandeiro espiritual das comunidades africanas.
Vim Da África Mãe Eh Oh
Mas se a vida é vã Eh Oh
Mumunha
Jimbanda me fiz
N Ganga é raiz
Eu pego o touro na unha
A letra segue retratando Xica como uma precursora, alguém que desafiou o “cis-tema”.
Ao longo da letra e na própria sinopse, a Paraíso do Tuiuti constrói a personagem como uma figura que desafia dogmas, enfatizando também o caráter revolucionário do samba que, assim como Xica, foi considerado marginal no passado.
A bicha, invertida e vulgar
A voz que calou o “Cis tema”
A bruxa do conservador
O prazer e a dor
Fui pombogirar na Jurema
O samba sugere que sua história segue viva em cada esquina, apesar de sua voz ter sido silenciada e sua memória apagada pela violência vivida. Ela representa hoje a luta diária das travestis e transexuais em busca, acima de tudo, de respeito.
Eu travesti
Estou no cruzo da esquina
Pra enfrentar a chacina
Que assim se faça
Ao resgatar a memória de Xica Manicongo, o samba-enredo da Paraíso do Tuiuti 2025 presta uma homenagem a todas as pessoas trans e travestis, tornando o desfile da escola ainda mais simbólico no Carnaval deste ano.
Os sambas-enredo são verdadeiros símbolos do Carnaval brasileiro, extremamente ricos em história e valor cultural. Vem conhecer alguns detalhes sobre a história do surgimento dos sambas-enredo no Carnaval brasileiro e sua importância para a festa mais revolucionária do país.





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