6 de Fevereiro de 2026, às 15:52
Uma das agremiações mais tradicionais do Rio, a Portela é famosa pela sua história de reinvenções, títulos e sambas marcantes.
Para o desfile de 2026, a escola escolheu um tema que expande essa tradição: a obra celebra ancestralidade, cultura afro-gaúcha e religiosidade na figura de Príncipe Custódio, destacando narrativas negras além dos centros tradicionais, como Bahia e Rio de Janeiro.

O enredo que vai embalar o desfile da Águia Altaneira na Marquês de Sapucaí propõe repensar a historicidade afro-brasileira sob uma perspectiva plural.
O samba-enredo da Portela 2026, O Mistério do Príncipe do Bará — a Oração do Negrinho e a Ressurreição de Sua Coroa sob o Céu Aberto do Rio Grande, homenageia Custódio Joaquim de Almeida, conhecido como Príncipe Custódio.
O termo “Bará” remete a uma divindade mensageira e guardiã nas tradições afro-religiosas, representando também a conexão entre o humano e o espiritual. No samba-enredo, ele é invocado tanto como eixo místico quanto como símbolo de proteção e guia do desfile.
A escola apostou em um samba-enredo que utiliza o batuque, o xirê (roda de oração), a reza e a herança dos povos africanos no Brasil.
Custódio Joaquim de Almeida, conhecido como Príncipe Custódio, é uma figura histórica ligada à formação religiosa e cultural da população negra no Rio Grande do Sul.
Nascido na região do antigo Reino do Benin, na África Ocidental, ele chegou ao Brasil no final do século XIX e se estabeleceu em Porto Alegre, onde se tornou referência espiritual para a comunidade afro-gaúcha.

Ele era babalorixá, liderava rituais, orientava terreiros e ajudou a consolidar o Batuque, religião que se tornou uma das principais expressões de fé negra no Sul do país.
No samba-enredo da Portela 2026, Custódio vira eixo narrativo. A letra associa sua trajetória a elementos do Batuque, ao xirê, às rezas e à presença de Bará, divindade mensageira e guardiã.
Logo no começo do samba, há referências à lenda do Negrinho do Pastoreio, que, após sofrer injustiças e ser abandonado em um formigueiro, é salvo milagrosamente e torna-se um protetor.
Enquanto houver um pastoreio a chama não se apagará
Não há demanda que o povo preto não possa enfrentar
Há outras referências ao personagem ao longo da letra, como o trecho que clama:
Vai, negrinho, vai fazer libertação
Resgatar a tradição onde a África assenta
Ô, corre gira, vem revelar o reino de Ajudá
O Pampa é terra negra em sua essência
Na sequência, o enredo mostra o “mistério” como gatilho que antecede o batuque. Ou seja, antes da festa e do ritmo, existe uma dimensão espiritual que ilumina e autoriza o toque dos tambores.
A escola sugere que o desfile nasce do rito, não do espetáculo.
Tem mistério que encandeia
Pro batuque começar
Sou mistério que encandeia
Pra Portela incorporar
“Incorporar” é um termo típico das religiões afro-brasileiras, ligado à presença de entidades e orixás no corpo do médium. Quando a Portela “incorpora”, a escola é atravessada pela ancestralidade e o desfile se transforma, simbolicamente, em um grande terreiro.
A alegoria do terreiro, inclusive, é um ponto central do enredo, que recorre a símbolos como o xirê e o som do tambor. A imagem mais direta do ritual aparece no refrão:
Alupo, meu senhor, alupô!
Vai ter xirê no toque do tambor
Alumia o cruzeiro, chave de encruzilhada
É macumba de Custódio no romper da madrugada
O xirê é a sequência de cantos e danças dedicadas aos orixás no candomblé e batuque. Mais que música, é ordem litúrgica, louvação. O samba coloca a Sapucaí no lugar do terreiro e o desfile deixa de ser coreografia para assumir estrutura ritual.
O “toque do tambor”, no contexto afro-religioso, não é instrumento decorativo. Ele convoca, comunica e organiza a cerimônia. A bateria da Portela passa a funcionar como extensão desses tambores sagrados.
A religiosidade aparece também de forma explícita nas referências à oração:
Aê, oni Bará! Aê, babá lodê!
A Portela reunida, carregada no dendê
Sob o céu do Rio Grande, tem reza pra abençoar
O príncipe herdeiro da coroa de Bará
Não é só celebração cultural: há um pedido de proteção e amparo espiritual, que conecta o desfile à figura de Custódio como líder religioso. As saudações “Aê, oni Bará! Aê, babá lodê!” funcionam como louvações litúrgicas.
No batuque gaúcho, Bará é o guardião dos caminhos, e invocá-lo no refrão simboliza a abertura de caminhos para a escola e para o desfile.
O verso também aproxima o samba da cosmologia iorubá. Ifá é o sistema oracular ligado à sabedoria e ao destino. “Aláfia” indica paz, equilíbrio. A letra recorre diretamente ao vocabulário religioso, não apenas a metáforas.
Ê, Bará, ê, Bará, ô!
Quem rege a sua coroa, Bará?
É o rei de Sapaktá
Aláfia do destino no Ifá!
Há uma sequência de imagens que transporta o ouvinte para dentro do espaço sagrado. “Cruzeiro” e “encruzilhada”, por exemplo, são pontos simbólicos ligados a Exu/Bará, locais de passagem e comunicação entre mundos.
“Romper da madrugada” remete ao horário típico de rituais, enquanto “macumba” aparece ressignificada como prática religiosa, não como estigma.
Em outro trecho, a letra descreve o próprio Custódio como sacerdote:
Curandeiro, feiticeiro, batuqueiro precursor
Pôs a nata no gongá, ô, iaiá!
Fundamento em seu terreiro, resiste a fé no orixá
Da crença no mercado ao rito do rosário
Ainda segue vivo o seu legado
A herança africana aparece como linha de permanência, não como memória distante, afirmando a presença negra estrutural no Rio Grande do Sul.
A Portela transforma a avenida em terreiro, a bateria em tambor sagrado, o canto em reza coletiva e Custódio em guia espiritual do cortejo. Assim, amarra história, religião e samba em uma mesma linguagem.
Mergulhe na história dos sambas-enredo e descubra como eles se tornaram a alma do Carnaval brasileiro.



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