Significado da música Vaca Profana, de Caetano para Gal Costa

Analisando letras · Por Érika Freire

28 de Abril de 2020, às 12:00

Sucesso na voz de Gal Costa, a música Vaca Profana foi escrita por Caetano Veloso atendendo a um pedido da própria cantora. O fato de Caetano ser o autor explica um pouco sobre a profundidade poética da canção, né?

Pelo estilo de composição, à primeira vista, os versos da música parecem não ter um sentido ou um entrelaçamento lógico. Essa característica permite diferentes interpretações e torna a obra multifacetada.

Gal Costa e Caetano Veloso
Créditos: Divulgação

O próprio Caetano explicou na edição dupla de seus livros Letra Só e Sobre as Letras que estava na Europa quando Gal lhe fez o pedido para compor. O cenário catalão, assim como as demais referências à cultura espanhola, aparecem na composição

Caetano também se debruçou na própria persona de Gal e na imagem pública dela naquela época. A música acabou entrando como a primeira do lado A do álbum Profana, de Gal Costa, lançado em 1984. 

Capa do álbum Profana, de Gal Costa
Capa do álbum Profana, de Gal Costa / Créditos: Divulgação

Quer conhecer mais sobre o significado da música Vaca Profana? Vem com a gente nessa análise! 

O significado da  música Vaca Profana

Música de “refrões mutantes que são difíceis de memorizar”. Assim descreveu Caetano ao comentar sobre a letra de Vaca Profana, escrita a pedido de Gal Costa

Ao fazer a leitura dos versos, é possível explorar diferentes ângulos. A letra, bastante enigmática, permite que cada leitor ou ouvinte faça a sua própria interpretação, de acordo com sua cultura, visão de mundo, crença… 

O próprio título da canção pode ser interpretado como uma possível provocação do compositor sobre o que pode ser considerado sagrado. Profano é tudo aquilo que não é sagrado, que está fora dos preceitos religiosos. 

Ao falar sobre a letra de Vaca Profana no livro Sobre as Letras, Caetano comentou que se tratava também de uma canção sobre a própria Gal e que procura dialogar com a personalidade da cantora.

Capa do livro Sobre As Letras, de Caetano Veloso
Capa do livro Sobre As Letras / Créditos: Divulgação

Por isso, os sentidos múltiplos da canção, que ainda hoje tornam a música um mistério para muitos. Vamos conferir agora a análise trecho a trecho da música Vaca Profana?

Análise da música Vaca Profana

Respeito muito minhas lágrimas
Mas ainda mais minha risada
Escrevo, assim, minhas palavras
Na voz de uma mulher sagrada
Vaca profana, põe teus cornos
Pra fora e acima da manada
Vaca profana, põe teus cornos
Pra fora e acima da manada
Ê, ê, ê, ê, ê,
Dona de divinas tetas
Derrama o leite bom na minha cara
E o leite mau na cara dos caretas

O primeiro verso fala sobre o antagonismo de sentimentos. Lágrimas, risos e como o personagem se comporta diante deles. Ele se respeita, acolhe seus dias tristes, mas sabe que a alegria precisa ser muito mais celebrada e respeitada do que a tristeza. 

Não importa como o outro o aponta, ele parece estar bem consigo mesmo, está amadurecendo e se percebendo. Escreve e dá voz a si mesmo e parece brincar com os opostos quando menciona a mulher sagrada e a vaca profana

A letra segue dizendo para que a vaca profana coloque os cornos, ou seja, os chifres para fora e acima da manada. É como se ela fosse a única capaz de se rebelar, de ter uma visão diferente dos demais, daqueles todos que seguem um padrão, um comportamento similar: para fora e acima. Ou seja, enxergar além do que se pode ver. 

Derrama o leite bom na minha cara, e o leite mau na cara dos caretas pode ser compreendido como uma provocação para que o melhor fique com os descolados, e que o que é ruim seja derramado sobre os caretas, sobre aqueles que ainda não têm uma visão de transformação. 

Segue a “movida madrileña”
Também te mata Barcelona
Napoli, pino, pi, pau, punks
Picassos movem-se por Londres
Bahia, onipresentemente
Rio e belíssimo horizonte
Bahia, onipresentemente
Rio e belíssimo horizonte
Ê, ê, ê, ê, ê,

Vaca de divinas tetas
La leche buena toda en mi garganta
La mala leche para los “puretas”

Neste trecho, aparece uma verdadeira homenagem à Catalunha, à qual a letra faz diversas referências. Movida madrilheña, por exemplo, foi um movimento de contracultura que teve início em Madri, na década de 70, e permaneceu até o final dos anos 80. Se estendeu por diversas cidades da Espanha, daí a continuação também te mata Barcelona

Pedro Almodovar, um dos maiores nomes da Movida Madrileña
Pedro Almodóvar, um dos maiores nomes da Movida Madrileña / Créditos: Divulgação

Caetano provavelmente ficou encantado com as obras de arte da região e incluiu na letra essas referências aos cantores Pi de lo Serra, Pau Riba e ao pintor Picasso.

Em seguida, Caetano lembra da importância da Bahia, do Rio e de Belo Horizonte para a sua formação como artista e indivíduo e, provavelmente, de Gal também.

Caetano e Gal Costa
Caetano e Gal Costa jovens / Créditos: Divulgação

É como se ele unisse agora todas as culturas, enfatizando que cada uma delas tem a sua importância. Os dois versos finais da estrofe são repetições em espanhol. 

Quero que pinte um amor Bethânia
Stevie Wonder, Andaluz
Mas do que tive em Tel-Aviv
Perto do mar, longe da cruz
Mas em composição cubista
Meu mundo thelonius monk’s blues
Mas em composição cubista
Meu mundo thelonius monk’s blues
Ê, ê, ê, ê, ê,
Dona das divinas tetas
Quero teu leite todo em minha alma
Nada de leite mau para os caretas

Agora, a música ganha um novo ritmo. A sonoridade fica mais rock and roll, mais alegre, diferente do som dramático da primeira parte. Ele menciona Pintar um amor Bethânia e esse trecho pode ser compreendido como um amor à moda, ao estilo de Bethânia, sua irmã.  

O trecho segue ainda dando a ideia de um amor de liberdade, longe de julgamentos. Perto do mar, longe da cruz. 

A composição cubista é a própria forma que ele cria a letra, com frases que parecem desconexas. Ele volta a Picasso, um dos fundadores do movimento.

Menina Com Bandolim, pintura cubista de Picasso
Menina Com Bandolim, pintura cubista de Picasso / Créditos: Divulgação

É uma espécie de miscelânea de tudo o que ele gostava e se identificava na época; prova disso é quando surge o nome de Thelonious Monk, um dos maiores pianistas e compositores de jazz. 

Sou tímido e espalhafatoso
Torre traçada por Gaudi
São Paulo é como o mundo todo
No mundo, um grande amor perdi
Caretas de Paris, New York
Sem mágoas, estamos aí
Caretas de Paris e New York

Sem mágoas estamos aí
Ê, ê, ê, ê, ê,
Vaca das divinas tetas
Teu bom só para o oco, minha falta
E o resto inunde as almas dos caretas

As reflexões do personagem agora se voltam para ele mesmo, como se estivesse elucidando, evoluindo a visão que tem sobre si.

Se reconhece tímido e ao mesmo tempo espalhafatoso, assim como se parecem as obras de Gaudi, mais uma figura importante da Espanha.

Templo Expiatório da Sagrada Família, uma das principais obras de Gaudi
Templo Expiatório da Sagrada Família, uma das principais obras de Gaudi / Créditos: Divulgação

Por tantas referências, alguns apontam a música como uma ode à Espanha. Observa São Paulo como um mundo e todas as suas nuances. 

Mas eu também sei ser careta
De perto, ninguém é normal
Às vezes, segue em linha reta
A vida que é “meu bem, meu mal”
No mais, as “ramblas” do planeta
“orxata de xufa, si us plau”
No mais, as “ramblas” do planeta
“orchata de chufa, si us plau”
Ê, ê, ê, ê, ê,
Deusa de assombrosas tetas
Gotas de leite bom na minha cara
Chuva do mesmo bom sobre os caretas
La mala leche para los “puretas”
Nada de leite mau para os caretas
E o leite mau na cara dos caretas
Chuva do mesmo bom sobre os caretas
E o resto inunde as almas dos caretas

Repare que os versos vão ganhando uma certa humildade. Antes, ele jogava diretamente com os caretas em tom de imposição, apontando como uma forma ruim de se colocar no mundo. 

Agora, ele reúne todos, os de Paris, os Nova York, sem mágoas. Ou seja, em todo lugar há caretas e ele também se vê como um de vez em quando

No final da canção, é como se o cantor se despisse de toda razão, da arrogância em julgar os demais e se reconhece também como um careta. Muitos consideram como uma música que fala sobre o amadurecimento pessoal. 

A música começa com a rebeldia juvenil e finaliza como uma compreensão mais aprofundada sobre tudo o que cerca a si mesmo e sobre quem somos nós para definir o que é sagrado e o que é profano? 

Letra censurada 

Como podemos observar, Vaca Profana não é uma obra fácil. Mas, talvez, ela seja até mais simples do que podemos imaginar.

Fala não apenas da cultura catalã, citando pintores, cantores e costumes da região, mas também pega embalo na personalidade de Gal que, para a época, não poderia ser compreendida como uma artista de múltiplas facetas. O preconceito pode ter sido a grande barreira para entender todo o seu universo.

Gal Costa
Créditos: Divulgação

Provavelmente, a mentalidade predominante naquele período não permitiria uma visão ampliada sobre quem era Gal Costa que, certamente, era tudo, menos aquilo que a família tradicional brasileira queria. 

Tanto que a música foi censurada, porque de acordo com a Divisão de Censura de Diversões Públicas, a letra  feria a moral e os bons costumes. 

Da velha à nova MPB: saiba mais! 

O que você achou da interpretação de Vaca Profana? Teria outra visão diferente sobre o significado da música? Conta pra gente! 

A MPB sempre nos tem algo diferente para nos ensinar e, por isso, a gente fez um post para saber o que mudou da velha à nova MPB. Vem conferir que está incrível!

A velha e a nova MPB