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Elas

Catherine Ribeiro

Elles

Elle était là tout près
Son rire cristallin
Bruissait au fil des pages
De mes livres d'école
Elle parlait d'amitié
Eternelle et sans faille
Comme si de rien jamais
Devait nous séparer

Nous avions l'âge de nos poupées
Et nous jouions à chat perché

Elle était là tout près
Allongée sur mon lit
La brume de ses cheveux
S'entremêlant aux miens
Ses bras de porcelaine
S'abandonnaient aux draps
J'étais neuve et fragile
Etrangement vaincue

Nous avions l'âge de nos vingt ans
Et nous jouions à faire semblant

Elle était là tout près
Désarmant ses contours
Je fouillais ses trésors
Aux charmes transparents
Elle collait à ma peau
Comme l'abeille au miel
Vertige de l'absence
De l'homme tant aimé

Nous étions d'un âge avancé
Et nous cherchions à nous calmer

Elle n'est plus là tout près
J'ai renversé le temps
De la divinité
Toutes griffes rentrées
J'invoque mes démons
Aux lumières éclatées
Pour laisser place nette
À l'homme tourmenté

Nous n'avons plus d'âge ni mémoire
Nos chemins se sont séparés

Elle n'est plus là tout près
J'ai le corps enchaîné
À l'homme du présent
Et de mon devenir
J'ai plié le genou
Sans jamais courber l'âme
Ferme les yeux amour
Et trouve le repos

J'ai traversé des nuits d'orages
Pour n'être plus qu'à mon image

Elas

Ela estava ali tão perto
Seu riso cristalino
Sussurrava entre as páginas
Dos meus livros da escola
Ela falava de amizade
Eterna e sem falhas
Como se nada nunca
Devesse nos separar

Nós tínhamos a idade das nossas bonecas
E brincávamos de pega-pega

Ela estava ali tão perto
Deitada na minha cama
A bruma dos seus cabelos
Se entrelaçando aos meus
Seus braços de porcelana
Se entregavam aos lençóis
Eu era nova e frágil
Estranhamente vencida

Nós tínhamos a idade dos nossos vinte anos
E brincávamos de fazer de conta

Ela estava ali tão perto
Desarmando seus contornos
Eu explorava seus tesouros
Com encantos transparentes
Ela grudava na minha pele
Como a abelha no mel
Vertigem da ausência
Do homem tão amado

Nós éramos de uma idade avançada
E buscávamos nos acalmar

Ela não está mais ali tão perto
Eu virei o tempo
Da divindade
Com todas as garras recolhidas
Eu invoco meus demônios
Às luzes estouradas
Para deixar o caminho livre
Para o homem atormentado

Nós não temos mais idade nem memória
Nossos caminhos se separaram

Ela não está mais ali tão perto
Estou com o corpo preso
Ao homem do presente
E do meu futuro
Eu me prostrei
Sem nunca curvar a alma
Fecha os olhos, amor
E encontra o descanso

Eu atravessei noites de tempestade
Para ser apenas a minha imagem

Composição: Patrice Moullet / Catherine Ribeiro