exibições de letras 1.167
LetraSignificado

    Marruêro, eu sou marruêro!
    Nacendo, cumo tinguí
    Fui ruim, cumo piranha
    Mais pió que sucuri

    Pixúna daquelas banda
    Véve a gente a campiá!
    Deus fez o hôme, marruêro
    Pra vivê sempre a lutá

    Meu pai foi bixo timive
    E eu fui timive tômbém!
    O pinto já sáe do ovo
    Cum a pinta que o galo tem

    Se meu pai foi marruêro
    Havéra de eu tá na toca
    A rapá no caitetú
    A massa da mandioca?

    Bebedô de madureba
    Pissuindo carne e caroço
    Eu nunca vi cabra macho
    Que me fizesse sobrôçol

    Nunca drumi uma noite
    Imbaxo de tejupá!
    Nací pra vivê nas gróta
    Pra vivê nos mócôsá

    Pra drumi longe dos rancho
    Prú-ríba duns gravatá
    Vendo a Lua pulas fôia
    D’um férmoso iriribá!

    Nos gaios da umarizêra
    O canta do sanhassú
    Na boca triste da noite
    O gimido da inhabú

    E as tuada da cabôca
    Lavando não’água do rio
    E os canto, prú via dela
    Nos samba nos disafio

    Nada disso, não, marruêro
    Me dava sastifação
    Cumo o mugido bravio
    Dos valente barbatão!

    Nada fazia, marruêro
    O coração me pulá
    Cumo uvi pulas varjóta
    Os berro dos marruá!

    Na paz de Deus eu vivia
    Nos brêdo dos matagá
    Tocando a minha viola
    Só pra meu gado iscutá

    Lá, prás banda onde eu naci
    Já se falava do amô
    Todas as boca dixia
    Que era farso e matadô!

    Mas porém, fui trazantonte
    No samba do Zé Benito
    Que eu panhei uma chifrada
    Que me deu esse mardito!

    Nas marvadage do Amô
    Não hai cabra que não caia
    Quando o diabo tira a roupa
    Tira o chifre e tira o rabo
    Pra se vistí c’uma sáia!

    Se adisfoiando no samba
    Cantando uma alouvação
    Eu vi a frô dos cabórge
    Das morena do sertão!

    Trazia dento dos óio
    Istrépe e mé, cumo a abêia!
    Oiôu-me cumo uma onça!
    E, ao despois, cumo uma ovêia!

    Aqueles óio xingôso
    Eu confesso a vasmincê
    Ruia a gente prú dento
    Que nem dois caxinguêlê!

    Sem mardade, um bêjo dado
    Naquela boca orvaiada
    Havéra de tê, marruêro
    O chêro das madrugada!

    A fala dela, marruêro
    Era o gemê do regato
    Que vai bêjando as fôiáge
    Que cái da boca dos mato!

    As duas rola morena
    Prú baxo do cabeção
    Trimia, cumo a água fresca
    Quando o vento bêja as água
    Das lagoa do sertão!

    Pruquê os dois peito alembrava
    Dois maduro cajá-manga
    E a boca, toda vremeia
    Parecia uma pitanga

    Chêrava as mão da cabôca
    Cumo os verde maturi!
    Era taliquá, marruêro
    Dois ninho de jurutí!

    Os pezinho da curumba
    Quando dançava o baião
    Parecia dois pombinho
    A mariscá pulo chão

    Eu me alembro, a saia dela
    Cô das pena da irerê
    Tinha a sôdade dos mato
    Quando vai anoitecê!!
    Aqueles braço de fogo
    (Deus não me castigue, não!)
    Quêmava, cumo as fuguêra
    Das noite de São João!

    Marruêro! Os cabelo dela
    Tinha o calô naturá
    Da pomba virge dos mato
    Quando cumeça a aninhá!

    Apois, os cabelo dela
    Tão preto prô chão caia
    Que toda a frô que butava
    Nos cabelo, a frô murchava
    Pensando que anoitecia!

    O suó que ela suava
    No samba, chêrava tanto
    Que inté a gente sintia
    Um chêro de ingreja nova
    Um chêro de dia santo!

    As anca, as cadêra dela
    Surrupiando no coco
    Toda a se tamborilá
    A móde que parecia
    O xaquaiá de uma onda
    Que vem jupiando, redonda
    Na praia se derramá!

    Japiaçóca dos brejo
    No arrastado do rojão
    Cantava cum tanta mágua
    Cum tanto amô e paxão
    Que ispaiava, no terrêro
    O ôrôma do coração!

    O coração das viola
    Aparava, de mansinho
    Se os dois fióte de rola
    Quando ela táva sambando
    Pulava fora do ninho!

    Entonce, aqueles dois óio
    Sereno, cumo o luá
    Vinha pra riba da gente
    Taliquá dois marruá

    Intrava dento da gente
    Cumo duas zelação!
    Mas porém, a gente via
    No fundo daqueles óio
    A hora da Ave-Maria
    Gemendo nas corda fria
    Das viola do sertão!

    Prú móde daqueles óio
    Dois marvado mucuim
    Um violêro, afulémado
    Partiu pra riba de mim!

    Temperei minha viola
    Intrei logo a puntiá
    E ambos os dois se peguémo
    Num disafio, ao luá!

    Premití a Santo Antônio
    Se eu vencesse o cantandô
    De infeitá o seu fiínho
    Cum um ramaiête de frô!!
    Só despois que nestas corda
    Fiz pinto cessá xerém
    Vi que o bichão se chamava
    — Manué Joaquim do Muquêm!

    Manué Joaquim era um cabra
    Naturá de Piancó!
    Quando gimia no pinho
    Chorava, cumo um jaó!

    Eu, marruêro, arrespundia
    Nestas corda de quandú
    E os acalanto se abria
    Cumo as frô do imbiruçú!

    Foi despois do disafio
    Quando eu saí vencedô
    Que os canto e os gemê dos pinho
    Não’um turumbamba acabou!

    Imquanto nós dois cantava
    Sem ninguém tê dado fé
    Tinha fugido a cabôca
    Cum o Pedro Cahitoré!

    Tinha fugido a curumba
    Cum aquele bóde ronhêro
    Um tocadô de pandêro
    E runfadô de zabumba!

    Tinha fugido, marruêro
    Aquela frô dos meus ai
    Cumo uma istrela que foge
    Sem se sabê pra onde vai!

    Na luz do Só, que acordava
    Lá, no coró do Nacente
    A móde que Deus, contente
    Cum a natureza sonhava!

    O canto alegre dos galo
    Nos capoerão amiudava!
    Nos taquará das lagôa
    As saracúra cantava!

    Alegre, passava um bando
    Das verde maracanã!
    Formosa, cumo a cabôca
    Vinha rompendo a minhã!

    O vento manso da serra
    Vinha acordando os caminho!
    Vinha das mata chêrosa
    Um chêro de passarinho!

    Lá, no fundão d’uma gróta
    Adonde um córgo gimia
    Gargaiava as siriêma
    Cum o fresco nacê do dia!

    Uma araponga, atrépada
    Não’um braço de mato, im frô
    Gritava, cumo si fosse
    Os grito da minha dô!!

    E a sabiá, lá nos gaio
    Da tabibúia, serena
    Trinava, cumo si fosse
    Uma viola de pena!

    Um passarinho inxirido
    Mardosamente iscundido
    Nas fôia de um tamburi
    Sastifeito, mangofando
    De mim se ria, gritando
    Lá de longe: Bem te vi

    Chegando na incruziada
    Despois do dia rompê
    Sipurtei o meu segredo
    Não’um véio tronco de ipê!

    Dênde essa hora, inté hoje
    Eu conto as hora, a pená!
    Eu vórto a sê marruêro!
    Vou vivê cum os marruá!

    Eu tinha o corpo fechado
    Pra tudo o que é marvadez!
    Só de surúcucútinga
    Eu fui murdido três vez!

    Tândo cum o corpo fechado
    Prás feitiçage do Amô
    Pensei que eu tava curado!

    Dos marruá mais bravio
    Que nos grotão derribei
    Munta chifrada penosa
    Munta marrada eu levei!!

    Pra riba de mim, Deus póde
    Mandá o que êle quisé!
    O mundo é grande, marruêro!
    Grande é o amô! Grande é a fé!

    Grande é o pudê de Maria
    Ispôsa de São José!
    O Diabo, o Anjo mardito
    Foi grande! Cumo inda é!

    Mas porém, nada é mais grande
    Mais grande que Deus inté
    Que uma chifrada, marruêro
    Dos óio d’uma muié!


    Comentários

    Envie dúvidas, explicações e curiosidades sobre a letra

    0 / 500

    Faça parte  dessa comunidade 

    Tire dúvidas sobre idiomas, interaja com outros fãs de Catulo da Paixão Cearense e vá além da letra da música.

    Conheça o Letras Academy

    Enviar para a central de dúvidas?

    Dúvidas enviadas podem receber respostas de professores e alunos da plataforma.

    Fixe este conteúdo com a aula:

    0 / 500

    Opções de seleção