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Sala de Recepção / Alvorada / Folhas Secas / Pranto de Poeta / Saudosa Mangueira / Lá Em Mangueira (part. Leci Brandão, Alcione e João Nogueira)

Chico Buarque

Letra

    Habitada por gente simples e tão pobre
    Que só tem o Sol que a todos cobre
    Como podes, Mangueira, cantar?

    Pois então saiba que não desejamos mais nada
    À noite, a Lua prateada, silenciosa, ouve as nossas canções
    Tem lá no alto um cruzeiro, onde fazemos nossas orações
    E temos orgulho de ser os primeiros campeões

    Eu digo e afirmo que a felicidade aqui mora
    Que as outras escolas até choram invejando a tua posição
    Minha Mangueira, és a sala de recepção
    Aqui se abraça o inimigo como se fosse o irmão

    Habitada por gente simples e tão pobre
    Que só tem o Sol que a todos cobre
    Como podes, Mangueira, cantar?

    Pois então saiba que não desejamos mais nada
    À noite, a Lua prateada, silenciosa, ouve as nossas canções
    Tem lá no alto um cruzeiro onde fazemos nossas orações
    E temos orgulho de ser os primeiros campeões

    Alvorada lá no morro, que beleza
    Ninguém chora, não há tristeza
    Ninguém sente dissabor
    O Sol colorindo é tão lindo, é tão lindo
    E a natureza sorrindo, tingindo, tingindo

    Alvorada

    Alvorada lá no morro, que beleza
    Ninguém chora, não há tristeza
    Ninguém sente dissabor
    O Sol colorindo é tão lindo, é tão lindo
    E a natureza sorrindo, tingindo, tingindo

    Você também me lembra a alvorada
    Quando chega iluminando
    Meus caminhos tão sem vida
    O que me resta é bem pouco, quase nada
    De que ir assim, vagando
    Numa estrada perdida

    Alvorada

    Alvorada lá no morro, que beleza
    Ninguém chora, não há tristeza
    Ninguém sente dissabor
    O Sol colorindo é tão lindo, é tão lindo
    E a natureza sorrindo, tingindo, tingindo

    Quando eu piso em folhas secas
    Caídas de uma mangueira
    Penso na minha escola
    E nos poetas da minha estação primeira

    Não sei quantas vezes
    Subi o morro cantando
    Sempre o Sol me queimando
    E assim vou me acabando

    Quando o tempo avisar
    Que eu não posso mais cantar
    Sei que vou sentir saudade
    Ao lado do meu violão
    E da minha mocidade

    Quando eu piso em folhas secas
    Caídas de uma mangueira
    Penso na minha escola
    E nos poetas da minha estação primeira

    Não sei quantas vezes
    Subi o morro cantando
    Sempre o Sol me queimando
    E assim vou me acabando
    E assim vou me acabando

    Em Mangueira quando morre um poeta, todos choram
    Vivo tranquilo em Mangueira porque
    Sei que alguém há de chorar quando eu morrer

    Mas o pranto em Mangueira é tão diferente
    É um pranto sem lenço, que alegra a gente
    Hei de ter um alguém pra chorar por mim
    Através de um pandeiro ou de um tamborim

    Em Mangueira quando morre um poeta, todos choram
    Vivo tranquilo em Mangueira porque
    Sei que alguém há de chorar quando eu morrer

    Tenho saudades da Mangueira
    Daquele tempo em que eu batucava por lá
    Tenho saudade do terreiro da escola
    Sou do tempo do Cartola
    Velha guarda, o que é que há? (O que que há?)

    Eu sou do tempo em que malandro não descia
    Mas a polícia no morro também não subia
    Eu sou do tempo em que malandro não descia
    Mas a polícia no morro também não subia

    Aí, Mangueira
    Minha saudosa Mangueira
    Depois que o progresso chegou
    Tudo se transformou
    E Mangueira mudou

    Já não se samba mais à luz do lampião
    E a cabrocha não vai pro terreiro de pé no chão (não vai, não!)
    Já não se samba mais à luz do lampião
    E a cabrocha não vai pro terreiro de pé no chão

    Lá em Mangueira
    Aprendi a sapatear
    Lá em Mangueira
    É que o samba tem seu lugar

    Foi lá no morro
    Um luar e um barracão
    Lá eu gostei de alguém
    Que me tratou bem
    Eu dei meu coração

    Eu dei meu coração
    Eu dei meu coração
    Eu dei meu coração
    Eu dei meu coração

    Composição: Nelson Cavaquinho, Cartola, Hermínio Bello de Carvalho, Herivelto Martins, Heitor dos Prazeres, Guilherme de Brito, Carlos Cachaça. Essa informação está errada? Nos avise.

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