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Delinco

Daniel Viglietti

Delinco

Soy amante de tres manos,
cuatro labios,
piel al viento.

Delinco de noche me atrevo a otros cuerpos,
de día me duermo soñando que es cierto.

Con la huella de mis dedos
ando en todos los sentidos.

Acecho amoroso, me entrego vencido,
soy pájaro agudo en tu tierno nido.

Este ardiente gato en celo,
siete vidas bien quisiera
para a fuerza de placeres
desnudar la primavera.

La mano pecosa de tanto pecado,
las venas, mil rastros del goce gozado.

Caigo en todos los vacíos,
manos, labios, nuca, sexo.
A lo cóncavo lo cubro
con la piel de lo convexo.

Mi voz allá abajo simula ser grave,
no quiere que sepan sus gritos de ave.

Siento en todos los andares
que lo firme de mi flecha
sin tu curva se declina,
sin tu blanco se deshecha.

Tus ojos ojeras de tantas esperas,
tus cejas al vuelo descienden caderas,
el pie donde bajo mi altura orgullosa,
abismo de inversos corales de rosas.

Delinco de noche, me atrevo a otros cuerpos,
de día me duermo, soñando que es cierto.
Mi voz allá abajo subiendo de ahínco,
entrando en tu oído gritando delinco,

Soñando que es cierto...
El goce gozado...
Los gritos de ave...
No quiero que sepan...
Mi altura orgullosa...
Abismo de inversos...
Corales de rosas...
Las cejas al vuelo...

Soy amante de tres manos,
cuatro labios,
piel al viento

pero el ojo de mis huesos
mira siempre hacia lo humano.

Delinco

Sou amante de três mãos,
quatro lábios,
pele ao vento.

Delinco à noite, me atrevo a outros corpos,
de dia me durmo sonhando que é verdade.

Com a marca dos meus dedos
ando em todos os sentidos.

Aceito amoroso, me entrego vencido,
sou pássaro afiado no seu ninho terno.

Este gato ardente no cio,
siete vidas bem queria
para, à força de prazeres,
desnudear a primavera.

A mão sardenta de tanto pecado,
as veias, mil rastros do gozo vivido.

Caio em todos os vazios,
mãos, lábios, nuca, sexo.
Ao côncavo eu cubro
com a pele do convexo.

Minha voz lá embaixo simula ser grave,
não quer que saibam seus gritos de ave.

Sinto em todos os passos
que o firme da minha flecha
sem sua curva se inclina,
sua brancura se desfaz.

Teus olhos, olheiras de tantas esperas,
tuas sobrancelhas ao vento descem quadris,
o pé onde baixo minha altura orgulhosa,
abismo de inversos corais de rosas.

Delinco à noite, me atrevo a outros corpos,
de dia me durmo, sonhando que é verdade.
Minha voz lá embaixo subindo com força,
entrando no seu ouvido gritando delinco,

Sonhando que é verdade...
O gozo vivido...
Os gritos de ave...
Não quero que saibam...
Minha altura orgulhosa...
Abismo de inversos...
Corais de rosas...
As sobrancelhas ao vento...

Sou amante de três mãos,
quatro lábios,
pele ao vento

mas o olho dos meus ossos
olha sempre para o humano.

Composição: Daniel Viglietti