O LIVRO DA ALMA
DARTAGNAN PORTELLA
A madrugada findou enquanto o pampa dormia
Geada no campo largo cobrindo trevo e macega
No horizonte o reponte do sol que vai despontando
Encompridando a alvorada, colorada que se revela
Debaixo de um velho umbu mateava quieto o tropeiro
Os olhos cor de braseiro velando o fogo de chão
Ao ver o quadro campeiro, perguntei a mim mesmo
Por onde andaria a sua alma naquele instante de oração
Quem sabe bebesse a estrada na essência dos campeadores
Redefinindo horizontes nas plenitudes da espera
Decerto longe da tropa, na imensidão das campinas
Distante talvez do pago, desperto em tons de aquarela
Talvez vagasse num sonho, perdida nos desalentos
Dispersa nos sentimentos, já muito além da querência
Ou mesmo a rondar a essência de cambichos e de amores
Que se fizeram um ninho de antigas dores e ausências
O canto de um quero-quero quebrou o silêncio do campo
A claridade do dia trouxe a graça de mil garças
O olhar parado na várzea de repente despertou
E junto do novo dia o tropeiro levantou
A tropa tomou o rumo cortando a estrada real
Na paisagem da querência desenhos do amanhecer
E nas faces do tropeiro um sorriso misterioso
Fechando o livro da alma que jamais se deixa ler



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