Les angles
Regarde-toi,
Tu ressembles à un meuble,
Et si l'on t'observait bien,
On pourrait voir tes coins si saillants,
Tellement peu seyants,
Sitôt qu'on parle aux humains.
Quand ta tête fond sur ton écran,
Je peux lire des zéros et des uns ;
Dans le bleu de tes yeux éteints,
Je me sens le pire des crétins.
Oui, je panique
Au guichet mécanique,
Mon ami si tu savais
À quel point je hais les salauds
Qui font de leur boulot
Une autre forme de procès.
Si je prends à peine la parole,
C'est qu'il y a entre toi et moi
Pas d'empathie mais du formol,
Et une pincée de mauvaise foi.
Tu te protèges
De nous comme de la neige,
Une pensée te glace d'effroi,
Suffirait-il d'un pas de travers,
D'un petit revers,
Pour que tu termines comme moi,
Du mauvais côté du comptoir,
Un peu perdu mais numéroté,
Enterrant tes rêves de gloire,
De promotion, de liberté.
Regarde-moi,
Je ressemble à un meuble,
Et si tu m'observes bien,
Tu pourras voir mes coins si saillants,
Tellement peu seyants,
Lorsque je parle d'humain.
Mais je maudis l'usage qui
Érige aussi sûrement qu'une loi
Des frontières entre toi, moi, lui,
En préambule à quoi que ce soit.
Si je prends un peu la parole,
C'est qu'il y a entre toi et moi
Pas d'empathie mais du formol,
Et une bonne dose de mauvaise foi.
Os Ângulos
Olha pra você,
Você parece um móvel,
E se a gente te observar bem,
Vai conseguir ver seus cantos tão salientes,
Tão pouco atraentes,
Assim que se fala com os humanos.
Quando sua cabeça derrete na tela,
Consigo ler uns e zeros;
No azul dos seus olhos apagados,
Me sinto o pior dos idiotas.
Sim, eu entro em pânico
Na máquina de autoatendimento,
Meu amigo, se você soubesse
O quanto eu odeio os canalhas
Que fazem do seu trabalho
Uma outra forma de processo.
Se eu mal consigo falar,
É porque entre você e eu
Não há empatia, só formol,
E uma pitada de má-fé.
Você se protege
De nós como se fosse neve,
Um pensamento te gela de medo,
Bastaria um passo em falso,
Um pequeno revés,
Pra você acabar como eu,
Do lado errado do balcão,
Um pouco perdido, mas numerado,
Enterrando seus sonhos de glória,
De promoção, de liberdade.
Olha pra mim,
Eu pareço um móvel,
E se você me observar bem,
Vai conseguir ver meus cantos tão salientes,
Tão pouco atraentes,
Quando falo de humano.
Mas eu amaldiçoo o uso que
Erige tão seguramente quanto uma lei
Fronteiras entre você, eu, ele,
Como um preâmbulo a qualquer coisa.
Se eu falo um pouco,
É porque entre você e eu
Não há empatia, só formol,
E uma boa dose de má-fé.