A quoi ça tient
Je n'ai jamais aimé l'école,
L'odeur du cuir, les heures de colle,
Les résumés d'histoire de France,
J'étais un vieil enfant trop sage
Qui f'sait semblant de faire son âge
Parmi les loups sans élégance,
J'avais dans la tête une fleur
Dont les pétales faisaient peur
C'est pas facile de vivre avec,
Allez savoir à quoi ça tient
De naître noir ou blond ou brun
Ou d'être gay...
J'ai passé ma p'tite enfance
Avant l'âge des préférences
Entre marelles et jeux de billes,
J'ai eu des amours enfantines,
J'ai même fait docteur en médecine
Pour voir sous les jupes des filles,
Je dessinais des mannequins
Sur des feuilles de papier dessin,
Des seins de femmes,
Des hanches de mec,
Je passais les fringues de ma mère
Et ses pinceaux sur les paupières,
Je divaguais
J'ai découvert avec les hommes
La chair et les pépins de pommes,
Le réconfort de l'âme frère,
J'ai connu le regard hostile
Des bien-pensants, des imbéciles
Et le mépris majoritaire
Le jour où mon père l'a su
Le ciel lui est tombé dessus,
C'était vingt ans d'foutus ou presque
Entre la tendresse de ma mère
Et les silences de mon père,
Je naviguais
Et puis un jour on d'vient adulte,
On n'entend même plus les insultes,
On n'a plus trop de temps à perdre,
Alors tous ceux qui privent de ciel
L'amour au masculin pluriel
On n'a pas l'choix, on les emmerde,
Depuis je cueille les fleurs du mâle,
Heureux de vivre en diagonale
Comme un fou sur son jeu d'échecs
Allez savoir à quoi ça tient,
De naître noir ou blond ou brun
Ou d'être gay...
A que se deve isso
Eu nunca gostei da escola,
Do cheiro de couro, das horas de detenção,
Dos resumos de história do Brasil,
Eu era uma criança velha muito certinha
Que fingia ter a idade que tinha
Entre lobos sem elegância,
Eu tinha na cabeça uma flor
Cuja pétala dava medo
Não é fácil viver com isso,
Vai saber a que se deve
Nascer negro ou loiro ou moreno
Ou ser gay...
Passei minha infância
Antes da fase das preferências
Entre amarelinha e jogos de bolinha,
Tive amores de criança,
Cheguei a ser médico em uma brincadeira
Pra ver debaixo das saias das meninas,
Desenhava bonecas
Em folhas de papel de desenho,
Seios de mulheres,
Quadris de caras,
Experimentava as roupas da minha mãe
E suas sombras nos olhos,
Eu divagava
Descobri com os homens
A carne e as sementes das maçãs,
O conforto da alma, irmão,
Conheci o olhar hostil
Dos bem-pensantes, dos idiotas
E o desprezo da maioria
No dia em que meu pai soube
O céu caiu sobre ele,
Eram quase vinte anos jogados fora
Entre o carinho da minha mãe
E os silêncios do meu pai,
Eu navegava
E então um dia a gente se torna adulto,
Nem escuta mais os insultos,
Não temos muito tempo a perder,
Então todos que tiram o céu
Do amor no masculino plural
Não temos escolha, a gente se foda,
Desde então eu colho as flores do macho,
Feliz de viver na diagonal
Como um louco no seu jogo de xadrez
Vai saber a que se deve,
Nascer negro ou loiro ou moreno
Ou ser gay...