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A História Começa (A Tomar um Caminho)

Dorsal Atlântica

History Starts (To Take A Route)

But the wall wasn't there. It never been there.
It was a moral concept, just like a mirage.

The posters warn that the readjustment began last night.
Next to the parade place, hundreds of hard
workers dance on a viaduct.
The loudspeakers play
readjustment songs to exalt the spirit of the fighters.
The dance blocks up the traffic.
The trucks that try to get through are plundered.
Police come beating them up.

Fireworks burst uninterruptedly.
Powder rises among thee sweat of the crowd.
All the air screams the claim of war and licentiousness.
A band goes leading the way, a fat travesty with razor
scars passes in an open car.
Two snakes around his neck, the head of one of them being swallowed.
The drunk people follow in procession like everything else
were useless living like the last of their days.

IAN starts running in the battle square.
The guards laugh at the show almost over.
What's left is the smell of blood and urine.

How to recognize someone among ruined flesh?

The tourists dance excited exorcising for love later,
and take a chance to shoot the dying and see how they
have fun, drink and admire from near the bloody skulls.
Mothers with sleeping children in the laps
talk about what to do tomorrow.
Children running on the remains, the posters sweep the splinters.
The firemen wet the corpses.
The urban trash company takes the remains away.

Bodies are gathered, at last they understand one another united in eternity.
All the gangs, enemies, lovers, parents, children, abortions.
Now they're all dead, from now to five minutes they'll be out of date.

History Starts to Take a Route

IAN locks himself in his room and just waits, nobody in his home.
Two other people walk to IAN's house.
They're two drop outs.
They had given up surrendering.
They hope that IAN would come to take them.
They break into the door, floor is all vomited IAN's body's in
fetal position, the two still tried to cheer him up but they ran away
scared leaving IAN and a dream behind.

Fireworks explode in the air party is over another one's just begun
people celebrate victory of the opposition's candidate
salute to hierarchic democracy.
Nothing looks more like an old rule than a new rule.

History starts to take a route.

Everything can happen again another way another time mankind
lives in circles that never meet.

[IAN:]
"I'm me I'm one I'm everybody I'm what I've always been
things are changing all around me there's a reality
inside me and I'm on it the light no longer transmits me anguish I know the dreams
will leave beyond us. A new beginning of life where I ended up".

Hours later the state doctors came to exhume the body they found
sings of death by suicide and an unknown name in death certificate.
People start talking about a martyr thinking about whatever hope
they might have.

History starts to take a route.

A História Começa (A Tomar um Caminho)

Mas a parede não estava lá. Nunca esteve lá.
Era um conceito moral, como um miragem.

Os cartazes avisam que o reajuste começou na noite passada.
Ao lado do lugar do desfile, centenas de trabalhadores
duros dançam em um viaduto.
Os alto-falantes tocam
canções de reajuste para exaltar o espírito dos lutadores.
A dança bloqueia o trânsito.
Os caminhões que tentam passar são saqueados.
A polícia chega batendo neles.

Fogos de artifício explodem sem parar.
Pólen sobe entre o suor da multidão.
Todo o ar grita a reivindicação de guerra e libertinagem.
Uma banda vai liderando o caminho, uma travesti gorda com cicatrizes
passa em um carro aberto.
Duas cobras ao redor do pescoço, a cabeça de uma delas sendo engolida.
Os bêbados seguem em procissão como se tudo o mais
fosse inútil, vivendo como se fossem os últimos dias.

IAN começa a correr na praça de batalha.
Os guardas riem do show quase no fim.
O que resta é o cheiro de sangue e urina.

Como reconhecer alguém entre carne arruinada?

Os turistas dançam animados, exorcizando para o amor depois,
e aproveitam para filmar os moribundos e ver como eles
se divertem, bebem e admiram de perto os crânios ensanguentados.
Mães com crianças dormindo nos colos
falam sobre o que fazer amanhã.
Crianças correndo sobre os restos, os cartazes varrem os estilhaços.
Os bombeiros molham os corpos.
A empresa de lixo urbano leva os restos embora.

Os corpos são reunidos, finalmente se entendem unidos na eternidade.
Todas as gangues, inimigos, amantes, pais, filhos, abortos.
Agora todos estão mortos, daqui a cinco minutos estarão fora de moda.

A História Começa a Tomar um Caminho

IAN se tranca em seu quarto e apenas espera, ninguém em sua casa.
Duas outras pessoas caminham até a casa de IAN.
São dois desistentes.
Eles haviam desistido de se render.
Esperam que IAN venha buscá-los.
Eles arrombam a porta, o chão está todo vomitado, o corpo de IAN está em
posição fetal, os dois ainda tentaram animá-lo, mas fugiram
assustados, deixando IAN e um sonho para trás.

Fogos de artifício explodem no ar, a festa acabou, outra apenas começou,
pessoas celebram a vitória do candidato da oposição,
saudando a democracia hierárquica.
Nada se parece mais com uma velha regra do que uma nova regra.

A História começa a tomar um caminho.

Tudo pode acontecer de novo, de outra forma, em outro tempo, a humanidade
vive em círculos que nunca se encontram.

[IAN:]
"Eu sou eu, sou um, sou todos, sou o que sempre fui.
As coisas estão mudando ao meu redor, há uma realidade
dentro de mim e eu estou nela, a luz não me transmite mais angústia, eu sei que os sonhos
vão além de nós. Um novo começo de vida onde eu acabei".

Horas depois, os médicos do estado vieram exumar o corpo, encontraram
sinais de morte por suicídio e um nome desconhecido na certidão de óbito.
As pessoas começam a falar sobre um mártir, pensando em qualquer esperança
que possam ter.

A História começa a tomar um caminho.

Composição: