exibições de letras 47

Farroupilha de Guerra

Elton Saldanha

Letra

    Está de volta a bandeira as três cores da minha pátria
    Que o povo do sul idolatra no tendão dessas coxilhas
    Quando uma gana me enforquilha eu vou engraxando os arreio
    Se formou um tempo feio com os mesmos calaveras
    Por isso sigo essa bandeira no Sol dos livres onde ela brilha

    Meu parador, é um rancho de barro erguido na beira da sanga
    Rodeado de sina a sina, guajuvira, japecanga
    Onde os recuerdos da guerra voltam que nem bois de canga
    E nos vintes de setembro se retempera a minha raça
    E a chama dos farroupilhas me ilumina a carcaça
    Pode passar mais cem anos que a nossa glória não passa
    Pois bordamos nossas divisas sempre abaixo de fumaça!

    Esse meu pangaré lombo de cerro, foi presente dum carroceiro
    Tapado de mosca e sarna é mais que meu companheiro
    Basteriado e às vezes manco, relinchando no potreiro
    Mas fica de oreia em pé quando escuta o entrevero
    Tem uma mancha no beiço e coiceiro que é uma praga
    Tem o nome de farrapo e pros pila é uma adaga
    Mas o que eu faço com este cavalo, nem com dinheiro me paga

    Oiga-lhe matungo feio, lindo pra entrar num bochincho
    Velhaco, passarinheiro, crinudo, meio pulincho
    Dou lhe um banho e deixo limpo que nem ovo de pelincho
    Lembro os primeiro galopes, credo em cruz, quase morro
    Eu vinha torcendo o basto no meio de uns dez cachorro
    Eu atravessando o maula, na guerra, nós dava aula
    Roncando que nem bizorro

    Despôs no meio da indiada, a risada era comum
    Quando na taipa do açude o desgranado igual muçum
    Só pra me deixar nas mágoas
    Se sampou comigo não'água que chegou a fazer timbum
    Encilho bem no capricho pra desfilar nem sei quando
    Nas vilas, pelas cidades, faceiro se atravessando
    Se me saca uma garrucha o boca seca se puxa bem na frente do bando!

    Neste mundão desigual eu já quebrei muito queixo
    Vivi que nem farroupilha, morro pobre e pouco deixo
    Minha vida é no corredor puxando bagual no trecho
    Quando dá o primeiro bufo eu sei o resto do desfecho
    Pala reiúno sem cola, meu facão de meia folha
    E um mango solteira grossa pra encher o maula de bolha
    Depois de eu estar em riba, pode me sampar na úrtiga que ai
    Aí não tem escolha
    Eu peço ao Patrão do Céu que meu pangaré não manque

    Quando eu cruzar retoçando bem na frente do palanque
    Vou campear uma ventana boa de laço, cozinha e tanque
    Que na garupa do matungo nem o penteado desmanche
    E se não for uma Anita que seja uma papagaia, farrapa véia de saia
    Pra aconchegar o teatino pra nós dois cantar os hinos
    E juntos rondar a chama bailar grudado na grama mas isso é um sonho qualquer
    Porque um pelego sem mulher é um coração que não ama!

    Meu pangaré no palanque se ajoelha vendo as percanta
    Esporeio nas virilha, enquanto eu miro uma santa
    Nós somos dois farroupilha campeando guerra e bailanta
    Enquanto ele relincha, de longe tô vejo a quincha da farrapa que me ama
    E de a cavalo campeio a guexa o mal me quer me abandona
    Me despacho pra um surungo, quero ver ela
    Num pealo me pescociar no gargalo sem ter pose de senhora
    Porque essas donas de agora querem rancho
    Calmaria e eu só tenho as ventanias no lombo do meu cavalo

    Não me venham com pilhas cola fina que a minha estampa é macha
    E um ginete do Rio Grande deve nascer de bombacha
    Sou do tempo do planchaço ás veiz é no vai ou racha
    E eu só tiro pra bailar moçoilas que eu não me facha!

    Talvez assim por ser pobre, meus recal são puro caco
    Mas pra mim é de valia ás honraria eos trapos
    Pois ao lutar contra os monarcas, os de riba
    Os da realeza e arrastar nas tarimbas de pelegos os perfumes da princesa
    Ando com uma lança farrapa enristada na minha alma
    E quando o sangue me borbulha só uma peleia me salva
    Sonho que tô na Batalha, a prenda me beija e me acalma
    E acordo e cevo o mate acordando a estrela d'alva

    Não baixo crista pra macho, nem que eu vá pros beleléu
    Com beiçudo xucro me entendo e saímos de boléu
    Por mim que voe por riba fico mais perto do céu
    Sou descendente de Bento e só pra Deus eu tiro o chapéu!

    Eu só quero um Sol de ouro e meia Lua de prata sou campechano
    Sou livre nas três cores da minha pátria
    Eu nasci solto de pata e nesta doutrina sou crente
    Na prenda, no pingo e o Sul e esta bandeira é minha luz
    Sou farroupilha pra sempre!


    Comentários

    Envie dúvidas, explicações e curiosidades sobre a letra

    0 / 500

    Faça parte  dessa comunidade 

    Tire dúvidas sobre idiomas, interaja com outros fãs de Elton Saldanha e vá além da letra da música.

    Conheça o Letras Academy

    Enviar para a central de dúvidas?

    Dúvidas enviadas podem receber respostas de professores e alunos da plataforma.

    Fixe este conteúdo com a aula:

    0 / 500

    Opções de seleção