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Tiro de Misericórdia

Elza Soares

Letra

    O menino cresceu entre a ronda e a cana
    Correndo nos becos que nem ratazana
    Entre a punga e o afano, entre a carta e a ficha
    Subindo em pedreira que nem lagartixa
    Borel, juramento, urubu, catacumba
    Nas rodas de samba, no eró da macumba
    Matriz, querosene, salgueiro, turano
    Mangueira, são carlos, menino mandando
    Ídolo de poeira, marafo e farelo
    Um Deus de bermuda e pé-de-chinelo
    Imperador dos morros, reizinho Nagô
    O corpo fechado por Babalaôs

    Baixou Oxalufã com a espada de prata
    Com sua coroa de escuro e de vício
    Baixou caô-Xangô com seu machado de vento
    Com seu fogo brabo nas mãos de corisco
    Ogunhê se plantou pelas encruzilhadas
    Com todos seus ferros, com lança e enxada
    Oxóssi com seu arco e flecha e seus galos
    E suas abelhas na beira da mata
    E Oxum trouxe pedra e água da cachoeira
    Em seu coração de espinhos dourados
    Iemanjá, o alumínio, suas sereias do mar
    E um batalhão de mil afogados

    Iansã trouxe as almas e os vendavais
    Adagas e ventos, trovões e punhais
    Oxumaré largou suas cobras no chão
    Soltou suas tranças, e quebrou o arco-íris
    Omolú trouxe o chumbo e o chocalho de guizos
    Lançando a doença pra seus inimigos
    E Nanã Burunkê trouxe a chuva, a vassoura
    Para o mundo dos corpos, pro sangue dos mortos

    Exús na capa da noite soltaram a gargalhada
    E avisaram a cilada pros orixás
    Exús, orixás, menino, lutaram como puderam
    Mas era muita matraca e pouco berro
    E lá no horto maldito, no chão do pendura-saia
    Zumbi menino lumumba tomba da raia
    Mandando bala pra baixo contra as falanges do mal
    Arcanjos velhos, coveiros do carnaval

    Irmãos, irmãs, irmãozinhos
    Por que me abandonaram?
    Por que nos abandonamos
    Em cada cruz?

    Irmãos, irmãs, irmãozinhos
    Nem tudo está consumado
    A minha morte é só uma
    Ganga, lumumba, lorca, Jesus

    Grampearam o menino do corpo fechado
    E barbarizaram com mais de cem tiros
    Treze anos de vida sem misericórdia
    E a misericórdia no último tiro
    Morreu como um cachorro e gritou feito um porco
    Depois de pular igual a macaco
    Vou jogar nesses três que nem ele morreu
    Num jogo cercado pelos sete lados

    Composição: Aldir Blanc / João Bosco. Essa informação está errada? Nos avise.
    Enviada por heloisa. Revisões por 2 pessoas. Viu algum erro? Envie uma revisão.

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