exibições de letras 16

Esquinas

Gaê

Letra

    Em uma esquina, eu vi você
    No encontro da Rua Sem-Nome e a Avenida Não-Sei-O-Quê

    Um sinal fechado, uma estação de metrô
    Eu não quero um chiclete
    Eu não quero um panfleto
    O sinal abriu

    Eu avanço e avança a vontade de te ver
    Piso fundo e imagino a vingança
    Mesmo sem querer

    Os edifícios e os prédios e as torres
    Arranham o céu
    Arranham o céu e alguém arranhou seu carro

    Pelas casas agora, as portas fechadas, janelas fechadas
    Um beco sem saída
    Um bairro sem vida
    É um bairro ainda
    É um bairro
    Ainda é um bairro, sim

    Desço e bato a porta do carro
    Outra porta fechada, outra porta
    Eu não quis fazer isso
    Eu não quis dizer isso
    Eu peço perdão

    São Paulo tá cheia de poetas que não recitam poemas
    São palavras mortas, frases frágeis, linhas tortas
    Versos que morreram na borracha do não dito

    São Paulo tem poemas em cada silêncio
    E cada grito feminino pela noite, cada tiro ou buzinada
    É um instante que faz a arte perecer

    São Paulo matou a poesia que fez renascer em mim a vontade de viver

    É agora cifras, métricas
    Um estouro no Instagram
    Poemas não são nada mais que o seu próximo post
    Uma indireta errante
    Louca pra acertar qualquer ser pensante que desavisado passar pelo feed

    O poeta que para o bar para falar de amor
    Nunca vai pisar em São Paulo
    Assim que desembarca, se transforma
    Vira arma
    Vira homem de mão armada
    Pronto para disparar contra o estabelecimento
    Pronto para disparar contra o estabelecido

    Vadio!
    Aqui não cabe o seu desassossego
    A sua desorganização
    Ou as suas inquietudes
    A não ser que virem canção

    A gente gosta do caos de concreto e papeis
    Tudo a tinta impresso
    Os seus rabiscos antônios não cabem aqui
    A não ser que se escondam muito bem em guardanapos de um bar

    E ficam bem escondidos também os nossos sentimentos
    Tão escassos quanto proibidos
    Banidos
    Bandidos!
    Roubam a nossa paz

    É que falta em São Paulo
    Pra bagunçar essa ordem de inércia
    Essa apatia maquiada tão bonita
    Ao lado da sua Costela-de-Adão e o seu membro flácido
    Poetas

    Poetas ofendem o mundo broxa com a sua ereção


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