Balada De Los Amantes Del Camino De Tavernay
El cuarto adonde habita mi ruiseñora
se nutre con el ruido de mi demora,
los cantos de la calle se están plegando
y el mórbido reloj mira blasfemando.
Después la lluvia encumbra sus volantines
y moja alguna estrella que agoniza entre violines
y agolpa sus rebenques desmelenados
a la anca de mi potro que no ha piafado.
De noche todo es claro si en su cortina
ondula una cadera que se adivina,
sacude su pañuelo la manterasa
y enciende las señales por donde pasa
mi atávico desvelo buscando casa.
La cama adonde espera mi buena moza
es tibia como un vientre y es luminosa,
viniendo de la lluvia y forzando puertas
aprecio que su gana ya esté despierta.
La cama adonde escurro mis homenajes
es donde desterramos la barrera de los trajes,
es donde de algún modo su resolana
se adueña de mi lengua tan soberana.
Allí nos respiramos de diestra suerte,
allí nos cobijamos por si la muerte,
allí yo le regalo mis estertores
y allí ella me devora con mil amores
cogiendo de mi sangre las frescas flores.
La cama donde anida su pulpa suave
es esa donde yergue su cuello mi ave
y aquella adonde estira su claro modo
amándome de cerca y mordiendo todo.
Su cama multiplica mi envergadura
que es llave con la que abro su opulenta sabrosura,
que es fuego con el que echo su frío afuera
y anido su gemido cuando lo quiera.
Viniendo de tan lejos estoy tan hondo,
tan cerca de su dentro y tan al fondo,
tan ávido y completo tan estrujado,
tan posesivo y pleno tan aplicado
que cuando el nuevo día se asoma me alza...
...Desangrado...
Balada dos Amantes do Caminho de Tavernay
O quarto onde mora minha rouxinol
se alimenta com o barulho da minha demora,
os cantos da rua estão se calando
e o mórbido relógio observa blasfemando.
Depois a chuva levanta seus papagaios
e molha alguma estrela que agoniza entre violinos
e amontoa seus chicotes desgrenhados
a anca do meu potro que não piafou.
De noite tudo é claro se na sua cortina
ondula uma cintura que se adivinha,
sacode seu lenço a mulher da manutenção
e acende os sinais por onde passa
meu atávico desvelo buscando abrigo.
A cama onde espera minha boa moça
é morna como um ventre e é luminosa,
vindo da chuva e forçando portas
percebo que sua vontade já está acordada.
A cama onde escorro minhas homenagens
é onde desterramos a barreira das roupas,
é onde de algum modo sua luz
se apodera da minha língua tão soberana.
Lá nos respiramos com sorte à direita,
lá nos abrigamos caso a morte venha,
lá eu lhe dou meus estertores
e lá ela me devora com mil amores
pegando do meu sangue as flores frescas.
A cama onde aninha sua polpa suave
e aquela onde ergue seu pescoço meu pássaro
e aquela onde estica seu jeito claro
me amando de perto e mordendo tudo.
Sua cama multiplica minha estatura
que é a chave com a qual abro sua opulenta doçura,
que é fogo com o qual espanto seu frio
e aninho seu gemido quando eu quiser.
Vindo de tão longe estou tão profundo,
tão perto do seu interior e tão ao fundo,
tão ávido e completo, tão espremido,
tão possessivo e pleno, tão aplicado
que quando o novo dia se aproxima, me levanta...
...Desangrado...