No Reconozco
No reconozco a ese tipo que mira asustado
desde el espejo de las escaleras mecánicas.
Allá donde todos miran buscando, qué sé yo,
tal vez una sumergida Atlántida
o un mechón rebelde,
algo perdido entre los recuerdos o los dientes.
Será simplemente que no estás a mi lado.
Salgo a la calle después de comprar viejos discos
que me recuerden, como no, a ti.
La distancia y el amor tienen esa costumbre
de mezclar el placer con las ganas de sufrir.
Salgo a la calle y enciendo un cigarro
-no pude dejarlo, ya sabes-
pensando que tal vez el humo se ha de llevar
mis plegarias hasta ti.
Ya ves que la vida tiene el mal gusto
de seguir su curso sin contar conmigo.
Todo parece un decorado triste y obsceno
porque no estás tú.
Ya ves que el mundo no tiene la delicadeza
de pedir perdón por echarnos a un lado
de malas maneras para seguir su camino.
Todo parece un teatro mal interpretado,
amarillo, cuarteado,
porque no estás tú,
porque no están todas las noches de marzo
que yo te he robado nadando en tu ropa,
todos lo demonios buenos,
todos los deseos naciendo en tu boca.
Luchando con las arañas grises del olvido,
como el hombre menguante en un inmenso Madrid,
busco mi coche perdido. Lo encuentro hundiéndose
como el vapor que abandonó Lord Jim.
Y por casualidad paso por la calle que te vio llorar.
Trampas tiene la ciudad y ¿quién quiere escapar?
Llego a mi casa cansado, vencido y Penélope -es lista-
esta vez tampoco me esperó.
Pongo la tele; pongo la colada y nada
me hace escapar de tu recuerdo, del dolor.
Siento que muero y fuera en la calle ni París ni aguaceros.
Será el invierno, la gripe, el momento
o que no estás a mi lado.
Pero, aunque la vida tenga el mal gusto
de seguir su curso sin contar conmigo,
yo sé que un día será soleado y tranquilo
porque estarás tú.
Aunque el planeta no tenga la delicadeza
de pedir perdón por echarnos a un lado
de malas maneras para seguir su camino,
yo sé que un día todo será diferente,
feliz simplemente,
porque estarás tú,
porque estarán todas las noches de marzo
que yo te he robado frente a tu portal,
todas las nuevas promesas
que escriben la senda a Nunca Jamás,
todos los sueños y el tacto
leve de tus manos buscando en mi ropa,
todos los demonios buenos,
todos los deseos naciendo en tu boca.
Não Reconheço
Não reconheço esse cara que olha assustado
pelo espelho das escadas rolantes.
Lá onde todo mundo olha buscando, sei lá,
talvez uma Atlântida submersa
ou um fio rebelde,
algo perdido entre as memórias ou os dentes.
Pode ser simplesmente que você não está ao meu lado.
Saio pra rua depois de comprar discos antigos
que me lembram, como não, de você.
A distância e o amor têm essa mania
de misturar o prazer com a vontade de sofrer.
Saio pra rua e acendo um cigarro
-não consegui largar, você sabe-
pensando que talvez a fumaça leve
minhas preces até você.
Você vê que a vida tem o péssimo gosto
de seguir seu curso sem contar comigo.
Tudo parece um cenário triste e obsceno
porque você não está aqui.
Você vê que o mundo não tem a delicadeza
de pedir desculpas por nos deixar de lado
de forma rude pra seguir seu caminho.
Tudo parece um teatro mal interpretado,
amarelo, rachado,
porque você não está aqui,
porque não estão todas as noites de março
que eu te roubei nadando na sua roupa,
todos os demônios bons,
todos os desejos nascendo na sua boca.
Lutando com as aranhas cinzas do esquecimento,
como o homem minguante em um imenso Madrid,
procuro meu carro perdido. O encontro afundando
como o vapor que abandonou Lord Jim.
E por acaso passo pela rua que te viu chorar.
A cidade tem armadilhas e quem quer escapar?
Chego em casa cansado, vencido e Penélope -é esperta-
mais uma vez não me esperou.
Ligo a TV; coloco a roupa pra lavar e nada
me faz escapar da sua lembrança, da dor.
Sinto que estou morrendo e lá fora na rua nem Paris nem chuvas.
Pode ser o inverno, a gripe, o momento
ou que você não está ao meu lado.
Mas, embora a vida tenha o péssimo gosto
de seguir seu curso sem contar comigo,
eu sei que um dia será ensolarado e tranquilo
porque você estará aqui.
Embora o planeta não tenha a delicadeza
de pedir desculpas por nos deixar de lado
de forma rude pra seguir seu caminho,
eu sei que um dia tudo será diferente,
feliz simplesmente,
porque você estará aqui,
porque estarão todas as noites de março
que eu te roubei na sua porta,
todas as novas promessas
que escrevem o caminho pra Nunca Jamais,
todos os sonhos e o toque
leve das suas mãos buscando na minha roupa,
todos os demônios bons,
todos os desejos nascendo na sua boca.
Composição: Ismael Serrano