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Testamento

Javier Ruibal

Testamento

No llevaré casi nada:
satén, madera barata
ensamblada a la ligera,
puntillas, asas de lata,
besos de mi compañera,
llantos y una carcajada.
No llevaré casi nada.

Lo dejaré casi todo:
mis canciones agresivas
de la forma que yo quiero,
vomitadas y escupidas
al uniforme rastrero,
hasta enterrarlo en el lodo.
Lo dejaré casi todo.

No llevaré casi nada:
sangre fría, piel dormida
sin dolor ni sufrimiento,
con la mirada perdida
en lo oscuro y sempiterno,
en mis manos enlazadas.
No llevaré casi nada.

Lo dejaré casi todo:
a los niños la sonrisa,
a la noche mis palabras
y a los poetas mis prisas;
y la muerte más macabra
a los buitres y los lobos.
Lo dejaré casi todo.

No llevaré casi nada;
para qué, si estaré muerto
de arrugas o de metralla.
Sólo el último recuerdo
de sábanas o batallas,
algún pensamiento cuerdo
y mi vida terminada.

No llevaré casi nada,
lo dejaré casi todo:
volveré de cualquier modo
a la tierra liberada.

Testamento

Não levarei quase nada:
seda, madeira barata
montada de qualquer jeito,
pequenas pontas, asas de lata,
beijos da minha parceira,
choros e uma gargalhada.
Não levarei quase nada.

Deixarei quase tudo:
minhas canções agressivas
do jeito que eu quero,
vomitadas e cuspidas
no uniforme rasteiro,
hasta enterrá-lo na lama.
Deixarei quase tudo.

Não levarei quase nada:
sangue frio, pele dormente
sem dor nem sofrimento,
com o olhar perdido
no escuro e eterno,
com minhas mãos entrelaçadas.
Não levarei quase nada.

Deixarei quase tudo:
para as crianças, o sorriso,
palavras para a noite
e a pressa para os poetas;
e a morte mais macabra
para os urubus e os lobos.
Deixarei quase tudo.

Não levarei quase nada;
para quê, se estarei morto
por rugas ou por estilhaços.
Só a última lembrança
de lençóis ou batalhas,
algum pensamento são
e minha vida encerrada.

Não levarei quase nada,
deixarei quase tudo:
vou voltar de qualquer jeito
a terra libertada.

Composição: