Carmen
De tus idas y venidas,
yo era el tonto que, a diario,
se maltrataba la vida,
esclavo de tus horarios.
Y, hasta el lucero del alba,
quería ser el pagano
que vendería su alma
por ese cuerpo serrano.
Lo más bonito del barrio
te mata cuando camina;
las guapas no tienen novio,
les salen en cada esquina.
Quise entrar a ese corrillo
de tunantes y sabuesos.
¡Qué peligro, Carmen,
uno solo de tus besos!
Ni golfo ni caballero,
ni tu sultán me veía,
y donde otros se rindieron,
mira tú, por dónde, un día
dejaste la llave puesta
y me invitaste, furtivo,
a la hora de la siesta
aquel verano perdido
en que me fui voluntario
para treparme a tu boca,
noche y día por tus labios,
enreda'o entre tu ropa.
Ese dulce calorcillo
se hizo dueño de mis huesos.
¡Qué peligro, Carmen,
uno solo de tus besos!
Y fue mi rompecabezas,
y mi cabeza un juguete,
y, en manos de tu belleza,
se fue mi vida al garete.
Y se apagó mi farol,
y luego vino el desierto
y me curé con alcohol
la herida de tu recuerdo.
Pero por ti correría
a ciegas por el alambre,
dame de tu brujería
que me alborota la sangre.
Mi corazón de chiquillo
de tu boca sigue preso.
¡Qué peligro, Carmen,
uno solo de tus besos!
Carmen
Das suas idas e vindas,
eu era o otário que, todo dia,
se maltratava a vida,
escravo dos seus horários.
E, até o amanhecer,
queria ser o pagão
que venderia a alma
por esse corpo tão bonito.
O mais bonito do bairro
te mata quando caminha;
as gatas não têm namorado,
aparecem em cada esquina.
Quis entrar nesse grupo
de malandros e cães farejadores.
Que perigo, Carmen,
um só dos seus beijos!
Nem vagabundo nem cavalheiro,
nem seu sultão me via,
e onde outros se renderam,
veja só, um dia
você deixou a chave na porta
e me convidou, furtivo,
a hora da soneca
aquele verão perdido.
Em que me ofereci de bom grado
para me enroscar na sua boca,
noite e dia pelos seus lábios,
embaraçado nas suas roupas.
Esse doce calorzinho
se apoderou dos meus ossos.
Que perigo, Carmen,
um só dos seus beijos!
E foi meu quebra-cabeça,
e minha cabeça um brinquedo,
e, nas mãos da sua beleza,
minha vida foi pro espaço.
E se apagou meu lampião,
e depois veio o deserto
e me curei com álcool
a ferida da sua lembrança.
Mas por você eu correria
cego pelo fio da navalha,
dê-me da sua bruxaria
que agita meu sangue.
Meu coração de menino
continua preso à sua boca.
Que perigo, Carmen,
um só dos seus beijos!