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Natal Galponeiro

Jayme Caetano Braun

LetraSignificado

    A cuia do chimarrão,
    É o cálice do ritual,
    E o galpão é a Catedral
    Maior da terra pampeana,
    Que de luzes se engalana,
    Para esperar o NATAL.

    A cuia aquece na palma
    Da mão da indiada campeira,
    Dentro da sua maneira,
    Rezando e chairando a alma,
    Para recuperar a calma,
    Que fugiu do mundo inteiro.
    Enquanto o estrelão viajeiro,
    Já vem rasgando caminho,
    para anunciar o "Piazinho",
    A Virgem e o Carpinteiro.

    Em nome do Pai,
    - Do Filho e do Espírito Santo,
    É o chimarrão que levanto,
    E o vento faz estribilho,
    A prece do andarilho,
    Ao Piazito Salvador,
    Filho de Nosso Senhor,
    Do Espírito e do Pai,
    De volta a terra aonde vai,
    Falar de novo em amor!

    Tem sido assim - dois mil anos,
    Ninguém sabe - mais ou menos,
    Vem conviver com os pequenos,
    De todos os meridianos,
    E repetir aos humanos,
    As preces de bem querer.
    Quem sabe até - pode ser,
    Que um dia seja atendido,
    E o mundo velho perdido,
    Encontre paz para viver.

    Ele sabe da apertura,
    Em que vive o pobrerio,
    A fome - a miséria - o frio,
    Porque passa a criatura,
    Mas que - inda restam - ternura,
    Amizade e esperança,
    É que pode, a cada andança,
    Mesmo nos ranchos sem pão,
    Aliviar o coração,
    Num sorriso de criança!

    Pra mim - que ouvi na missões,
    Causos de campo e rodeio,
    Do "Negro do Pastoreio",
    Cruzando pelos rincões,
    Das lendas de assombrações,
    E cobras queimando luz.
    Foste - Menino Jesus,
    O meu sinuelo de fé,
    Juntando ao índio Sepé,
    O Nazareno da Cruz!

    E a Santa Virgem Maria,
    Madrinha dos que não tem,
    Fez parte - sempre - também,
    Da minha filosofia,
    Eu que fiz de Sacristia,
    Os ranchos de chão batido,
    E que hoje - encanecido,
    Sou sempre o mesmo guri,
    A bendizer por aí,
    O pago que fui parido!

    E o Nazareno que vem,
    Das bandas de Nazaré,
    Chasque divino da fé,
    Rastreando a luz de Belém,
    Ele que vai morrer também,
    Pra cumprir as profecias.
    É Natal - nasce o MESSIAS,
    Salve o Menino Jesus!
    Mas o que fogem da luz,
    O matam todos os dias.

    Presentes - "Papais Noéis",
    Um ano esperando um dia,
    Quando a grande maioria,
    Sofre destinos cruéis.
    O amor pesado a "mil-réis",
    E mortos vivos que andam,
    Instituições que desandam,
    Porque esqueceram JESUS,
    O que precisa, é mais luz,
    No coração dos que mandam!

    Que os anjos digam amém,
    Para completar a prece,
    Do gaúcho que conhece,
    As manhas que o tigre tem.
    Não jogo nenhum vintém,
    Mesmo sendo carpeteiro,
    Mas rezo um Te-Déum campeiro,
    Nessa Catedral selvagem,
    Pra que faça Boa Viagem,
    O enteado do Carpinteiro!


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