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Galpão Nativo

Jayme Caetano Braun

LetraSignificado

    Meu velho galpão de estância
    Da pampa verde-amarela
    Que ficou de sentinela
    Da história de nossa infância
    És um marco na distância
    Da velha capitania
    Porque foste a sacristia
    Do batismo do gaúcho
    Quando moldou-se o debucho
    Da pátria que amanhecia

    Quinchado de santa fé
    Oito esteios, pau a pique
    Até parece um cacique
    Todo emprumado de pé
    O legendário sepé
    Legítimo rei no trono
    Que desde o primeiro entono
    Trazia a pátria nos tentos
    Anunciando aos quatro ventos
    Que esta terra tinha dono

    Velho bivaque nativo
    Encravado na cochilha
    Palanque de curunilha
    Do rio grande primitivo
    Altar do fogo votivo
    Que um dia o guasca acendeu
    E aceso permaneceu
    Bordado de picumãs
    Anunciando aos amanhãs
    Que o gaúcho não morreu

    Não existe nada igual
    Em qualquer parte do mundo
    Como o vínculo profundo
    Do galpão tradicional
    Que esse fogão ancestral
    Que acalenta e arrebata
    Nesta velha casamata
    Onde o guasca viu a luz
    Galpão que a história traduz
    Como oficina de pátria

    Foi aqui que se fundiram
    Aqueles velhos modelos
    Que serviram de sinuelos
    Da pátria que constituíram
    Da pátria que construíram
    Que a isso se propuseram
    E nunca se detiveram
    Porque nunca se detinham
    Pra perguntar de onde vinham
    Nem tampouco quantos eram

    Foi aqui que descansaram
    Depois das lides guerreiras
    Os centauros das fronteiras
    Que irmanados chimarrearam
    E foi daqui que marcharam
    Os andejos e os gaudérios
    Negros e mulatos sérios
    E tapejaras errantes
    Gaúchos e bandeirantes
    Rasgadores de hemisfério

    O grande poeta balbino
    Marque da rocha escreveu
    Que o riograndense cresceu
    Dono do próprio destino
    Peleando desde menino
    Criado longe do pai
    E é ele que um dia vai
    De boleadeira e de vincha
    E trás o brasil na cincha
    Pras barrancas do uruguai

    Esse é o galpão que cultuamos
    Esse é o galpão que queremos
    Esse é o galpão que erguemos
    E o galpão que conservamos
    Como dizia rui ramos
    Velho tribuno imponente
    Um pedaço de presente
    E um pedaço de passado
    E futuro enraizado
    No subsolo da gente

    Essa legenda, essa história
    Essa história, essa legenda
    Desta rústica vivenda
    Da luta demarcatória
    Da luta emancipatória
    Da velha pátria comum
    Não há preconceito algum
    No velho galpão campeiro
    Ao pé de cujo braseiro
    Sempre há lugar pra mais um

    Tribunal e refeitório
    De maulas e milicianos
    De charruas e paisanos
    Sem pátria nem território
    Hoje és, galpão, repertório
    Daquelas charlas fraternas
    E das lembranças eternas
    Das saudades que ficaram
    Dos centauros que matearam
    Nos teus cepos de três pernas

    Porém te resta o encargo
    Velho galpão ancestral
    Legendária catedral
    De pátria e de pampa largo
    No ritual de mate amargo
    Ainda existe cevadura
    És um templo na planura
    De paz, amor e carinho
    Pra iluminar o caminho
    Da grande pátria futura

    Mas se não houver campo aberto
    Lá em cima quando eu me for
    Um galpão acolhedor
    De santa fé bem coberto
    Um pingo pastando perto
    Só de pensar me comovo
    Eu juro pelo meu povo
    Nem todo o céu me segura
    Retorno a velha planura
    Pra ser gaúcho de novo


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