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Payada da Páscoa

Jayme Caetano Braun

Letra

    Meus irmãos
    Que coisa linda chimarrear de manhã cedo
    Olhando ao longe o varzedo
    A estrela d'alva saindo
    Igual uma flor se abrindo
    Pra o dia que vai nascer
    E o índio pega a percorrer
    De novo a estrada perdida
    E as coisas boas da vida
    Que quis e não pode ser

    Lembro o Ruívo, o José Leal
    Nessa hora de mim mesmo
    E fico pensando a esmo
    Nesse voo emocional
    Do imenso manancial
    Das aventuras que já tive
    Pois sem amor ninguém vive
    Essa é a lei da natureza
    Porém a maior riqueza
    Que o homem tem é ser livre

    E ouço a cambona que chia
    E tomo mais um amargo
    E volto pro sonho largo
    Do canto e da fantasia
    E o meu verso se estravia
    Depois eu fico pensando
    Que a guitarra bordoneando
    Aqui junto do fogão
    É o bater do coração
    Do tempo que vai passando

    E fico a pensar absurto
    No imenso nazareno
    Que grande quis ser pequeno
    Ele que orara no horto
    Ele não seria morto
    Se houvesse nascido aqui
    Se houvesse sido guri
    Dentro de um rancho barreado
    E nunca crucificado
    Neste pago onde eu nasci

    Mas ele, nosso Senhor
    Foi que escolheu o calvário
    Ele, o grande libertário
    O maior libertador
    Ele, o nosso criador
    Morto pela criatura
    Para demonstrar ternura
    Do maior ao mais modesto
    E fez da morte protesto
    A qualquer escravatura

    Amanhã é páscoa
    As crianças nem dormem
    Que coisa linda
    Porque não sabem ainda
    De entreveros e matanças
    E eu sigo em minhas andanças
    E vou cruzando os caminhos
    Percorro todos os ninhos
    Em cada canto do mundo
    Porque no fundo, no fundo
    Nós sempre somos piazinhos

    E o homem? Que faz o homem?
    Olhando a essência divina
    O homem se auto extermina
    E os princípios se consomem
    As coisas boas se somem
    Tragadas pela ganância
    E vão ficando a distância
    Carregados pelo vento
    Aqueles ensinamentos
    Que a gente trouxe da infância

    E vem a reminiciência
    A querência onde eu nasci
    O pago onde eu fui guri
    A minha velha querência
    Que eu lembro com reverência
    Que eu lembro com emoção
    A sagrada devorão
    De toda aquela peonada
    Nem se dava uma risada
    Numa sexta de paixão

    Hoje é tudo diferente
    Pois tudo mudou de jeito
    Hoje já não há respeito
    É comércio simplesmente
    Pensam que dar um presente
    É o que basta e é um engano
    Esquecem que o soberano
    O nosso santo Jesus
    Um dia subiu à cruz
    Pra salvar o gênero humano

    Eu não sou muito de igreja
    E vou nela longe em longe
    Muito embora seja um monge
    Dessa liturgia andeja
    Mas há um Deus que me proteja
    E Ele é gaúcho por certo
    Porque sempre eu sinto perto
    Do bater das pulsações
    E quanto a minhas orações
    As faço no campo aberto

    Prefiro a paz dos escambos
    Respingados de sereno
    Onde sou grande e pequeno
    Na magestade dos campos
    Contemplando os pirilampos
    Que da grama se desprendem
    E quando as estrelas se ascendem
    Eu converso com as estrelas
    Porque aprendi a compreendê-las
    E elas também me compreendem

    Hoje não há noticiário
    Nós todos fizemos tréguas
    Embora há mais de mil léguas
    Do velho monte calvário
    Eu vou desfiando um rosário
    De orações que sei dizê-las
    O vento ensinou-me a lê-las
    Em bárberas operetas
    Nos coros das noites pretas
    Carrapateadas de estrelas

    O Everlem, o Flávio, os Teatinos
    E a Guaíba são devotos
    E deixam agora os votos
    De páscoa e bater de sinos
    Velhos, moços e meninos
    Fica também um conselho
    Fazei do peito um espelho
    De mar verde, só de campo
    Verde e céu azul
    Que o Brasil grande do sul

    Deixará nele um espelhoe
    E o rude cantor jesuíta
    Termina a semana santa
    Cantando pois quando canta
    A oração que recita
    Logo Jesus ressucita
    Que a Ele ninguém empuia
    E eu hoje tiro aleluia
    Numa bailanta campeira
    Sapateando uma vanera
    Com a diaba cor de cuia


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