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Payada Das Primaveras

Jayme Caetano Braun

LetraSignificado

    É um manancial de alegria
    A inspiração que estravaza
    Quando a gente dá ô de casa
    Pra escutar um buenos dias

    Cincerros de melodias
    Que sobe na atmosfera
    Depois tudo se entrevera
    Num soluço de beleza
    Pra saudar a natureza
    Vestida de Primavera

    É o quadro vivo mais lindo
    Que enternecido contemplo
    O varzedo é todo um templo
    Cheio e vida Surgindo

    Flores do campo se abrindo
    Quando tudo se alvoroça
    O bicharedo retoça
    Em barbarescos namoros
    O próprio berro dos touros
    Parece até que se adoça

    Quadro de todos os anos
    A gente anseia revelo
    Até os guachos do sinuelo
    Parecem mais araganos
    Há fogo em nossos tutanos
    Na misteriosa mudança

    É o tempo em eterna dança
    Que nos empurra pra diante
    E a saudade mais distante
    Volta a queimar na lembrança

    O lindo capim mimoso
    Prossegue o rodízio eterno
    De se queimar no inverno
    Pra renascer mais viçoso

    No ciclo maravilhoso
    Da tábua das estações
    Peixes pulam nos lagões
    E os pássaros payadores
    Misturam trinos e cores
    Entre as crinas dos capões

    Parece que se desata
    O toque dos elementos
    Trazendo na voz dos ventos
    Um eco de serenata

    Até a chilena de prata
    Retine mais patacuera
    Na melodia campeira
    Que se faz cancha no espaço
    Como marcando o compasso
    Junto ao sabiá-laranjeira

    Há tanta autenticidade
    Nas vozes da natureza
    Que resumem a beleza
    Da própria simplicidade

    A estação não tem idade
    Dela não há quem se esconda
    Tudo se ajeita, arredonda
    Tudo renasce, se agita
    Na clarinada bonita
    Da Primavera que ronda

    As aves cantam mais cedo
    E os cuchinchos mais a miúde
    Nessa sinfonia rude
    De céu, vento e arvoredo
    Há um misterioso segredo
    Terneiro berra mais grosso
    Potrilho arqueia o pescoço
    No milanar evangelho

    O moço fica mais velho
    O velho fica mais moço
    O sangue anda mais depressa
    Nas artérias e nas veias
    Arrebentando maneias
    Da vida que recomeça

    Não há barreira que impeça
    O tempo que se arremanga
    Floresce o pé de Pitanga
    Branqueando num desafio
    E se acorda mais macio
    O bordoneio da sanga

    Mas não só nos descampados
    A Primavera incêndeia
    Ela se enfeita e passeia
    Nas vilas e nos povoados
    Nos ambientes asfaltados
    Cidades e capitais
    Pombas, bem-te-vi's, pardais
    Em melodiosos arrulhos
    Repetem doces barulhos
    De tempos imemoriais

    Nas ruas e nas calçadas
    A infância e a juventude
    Que não há força que mude
    Desfilam entreveradas
    E as paysanas encantadas
    Xiruas respiram fundo
    Vibrando cada segundo
    Sentindo cada minuto
    O domínio absoluto
    Que tem da gente e do mundo

    E o homem defronte a isso
    Até parece impossível
    Vai se tornando insensível
    Por força de algum feitiço
    É um criminoso, um omisso
    Da forma mais inconsciente
    Gente que já não é gente
    Buscando outra trajetória
    Depois da triste vitória
    De matar o meio ambiente

    Será tão empedernido?!
    Que não veja quando cruza
    Dois cerros contra uma blusa
    Dum poema recém vestido
    Ou não lhe adoce o ouvido
    Insensível, deformado
    O concerto aveludado
    De uma calandria selvagem
    Vestindo nova roupagem
    De bico recem pintado

    Eu pergunto, de que adianta
    Plantar um pé de erva-mate
    Como sinal de combate
    Em defesa de uma planta
    Se a mesma mão que levanta
    Nessas considerções
    É que assina conceções
    Num inconsciente floreio
    Aos assassinos do meio
    Que fazem devastações

    Falta ainda muito pro resto
    Mas em tempo me concentro
    Entrar primavera a dentro
    Não da força ao meu protesto
    Vale a homenagem que presto
    A todos os índios cueras
    Que lutam contra as taperas
    E contra as destruições
    A eles minhas canções
    Vestidas de Primavera

    Composição: Jayme Caetano Braun. Essa informação está errada? Nos avise.

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