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Tempo Feio no São Miguel

Jorge Abreu

Letra

    Trovês e relâmpagos prenunciam a manhã
    Um lençol negro se destapa no horizonte
    A gadaria são pontos alvos na escuridão
    "Oigalê-te" chuva braba não froxa faz três "ontonte"
    Faz este paisano "recorre das oração"

    Várzeas e restingas alagadas
    O Ibicuí mostra pra o campo sua imponência
    Minha tubiana não troteia mais no torrão
    Espinilhos e figueiras forcejam com sua essência
    São abas largas para o abrigo deste rincão.

    Quero-queros são vozes perante o silêncio
    Fazem contraponto com o canto das cigarras
    Um filme passa na retina deste campeiro
    Mês passado já pelei mais de cinco garras
    Deus me ajude que aguente este janeiro.

    Este verão chuvoso que não para faz três dias
    Encharca o poncho e o horizonte de flexilhas
    Faz chorar a alma deste vivente incréu
    Renasce esperança no rincão de São Miguél.

    A chuva acalma e o mormaço toma conta
    É a regra antiga dos verões desta fronteira
    Até parece que o mundo todo silencia
    Só resta o ronco da tourada caborteira
    Abrindo cova no desdobrar de cada dia.

    Meu poncho amigo sempre minha companhia
    Sabe como ninguém das volteadas de uma enchente
    Teve comigo momentos tristes e de alegria
    Da rodada mais feia deste vivente
    A ternura plena de uma vaca de cria.


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