
Valsa do Penhasco
Juliana Hoffmann Liska
Sou um espírito caindo do penhasco
Da outra vida
Me joguei pra te puxar do abismo
Segurei teus cortes com a minha saliva
Tua alma sugada da minha existência
Vazio na pele
Eco na mente
Eu burlei a morte num beijo invertido
Não desmanchei no vento
Fiquei presente
Não virei sombra perdida
Nem sopro preso no frio
Nasci de novo na sua ferida
Aos poucos
Eu vi: Virei meu próprio vazio
Virei vampiro em volta do seu ser
Fazendo a vontade do seu adeus
Te amo em silêncio
Pra não te prender
Na eternidade
Ainda sou teu
Te guardo um espaço na escuridão
Pra na sua última valsa cair pela mão
E viver ao meu lado
Enfim
Nem que seja o fim de mim
Te vejo dançando com punhais invisíveis
Girando sozinha no salão do tempo
Cada passo rasga um pouco do meu resto
Cada giro arranca mais do meu alento
Teu riso distante corta como vidro
Mas eu aceito ser teu cemitério
Guardar teus segredos
Teus pecados cansados
Num peito febril
Num amor bem sério
Quando o corpo cansar
E o mundo sumir do teu olhar
Eu estarei onde o pulso falha
Braços abertos
Sem muralha



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