Olhares
O sino tocou,
abri a porta
uma mulher desconhecida
abraçava uma criança no pescoço.
Com a mão estendida
e os olhos sem brilho,
eu conhecia aquele olhar,
vazio e sem fim.
Outro dia na estação,
um pouco antes do escuro,
vi o mesmo olhar
na janela do trem.
Um homem de cinza
carregava isso no rosto,
escondia o olhar
como uma lâmpada apagada.
As mãos tremiam
como se segurasse pássaros,
eu esperei que ele os tirasse
para ver o rosto dela.
Não havia lágrimas,
para isso é preciso força,
só aquele olhar,
e os olhos tão suaves.
Refrão:
Cada vez mais há
olhares assim na rua,
a vida tece redes
e continuará a tecer.
Cada vez mais há
olhares assim na rua,
não há mais amigos,
você não tem a quem encontrar.
A noite estava quente,
me despertei antes do amanhecer,
olhei pela janela
voltada para o mar.
Ela andava em círculos
como se esperasse alguém,
eu conhecia aquele olhar,
isso é visível de longe.
Talvez nossos olhos,
vistos de fora,
poluam de preto
estes dias cinzentos.
E dentro de nós há
vermelho e branco,
só o preto se cuida
para que não se encontrem.
Refrão:
O sino tocou,
abri a porta,
o sino tocou,
abri a porta.