
Conclusão (part. Filipe da Guia e Coletivo Candiero)
Marco Telles
Bertoleza entrou na festa
Pobre, negra, mulher do morro, explorada
Agora descansa, samba e dança
Os retirantes magricelos
Fabiano, sua esposa Sinhá Vitória
Seus filhinhos e até a Baleia
Não precisam mais fugir da miséria em busca de abrigo
Entraram na festa
Pedro Bala e a pobre Dora
Pirulito e os demais Capitães da Areia
Foram todos recebidos com comida de verdade
Não vão precisar mais roubar
Macabéa não precisa mais se resignar na angústia de não saber
Tudo lhe foi revelado, está desvendado
Sorri com todos os demais, está em família
É assim que vejo o final dessa parábola
Com esses representantes da alma brasileira
Finalmente encontrando um lugar de acolhimento e celebração
Porque o grande banquete não seria grandioso
Sem cada uma dessas almas quebradas
O que torna o grande banquete grande
Não é a comida fina e exótica na mesa
Nem se tem uma observação sequer de Jesus acerca do que foi servido
O que o torna grande é o fato inexorável
De ter sido a majestade graciosa, misericordiosa num nível tal
Que gente assim, gente como eu
Pela primeira vez entrou nos salões reais
Um absurdo, um disparate, um desperdício de tempero
Aqueles paladares oxidados pelo pecado
Jamais conseguiriam descrever fielmente o sabor de alimentos tão finos
Que desperdício, que assombro, que espetáculo de Rei
Como não se maravilhar diante de Sua graça?
Como não dançar e celebrar o Rei que quebra o sistema dos religiosos
E admite pecadores como Seus convidados de honra?
Come com eles, dança e canta com eles
Por mais hipnotizante que esse seja essa cena
Ela não é a última cena da parábola
A majestade termina dizendo: Eu lhes digo
Nenhum daqueles que foram convidados provará do meu banquete
Essa frase soou no salão onde Jesus contava tal história
Os convidados não tinham coragem sequer pra olhar uns pros outros
Depois de demonstrarem claramente estarem mais preocupados com a tradição
Do que com a alma quebrada e doente na porta
Depois de brigarem pelos primeiros lugares
E de suspirarem na certeza que merecem o banquete do céu
Jesus encerra Sua história sobre o valor que a vida tem
Amarrando-lhes uma bola de ferro ao calcanhar e os jogando no oceano
Esses que sabem do convite, ouviram os profetas, os mensageiros, os servos
Esses que pertencem ao ecossistema do palácio
Que foram previamente convidados
Mas que de forma insensível viraram as costas pro banquete
Esses não provarão da minha mesa
Que sentença terrível
Há quanto tempo você tem ouvido o mar lhe chamar pra celebrar?
Quanto tempo faz que você escuta a vida
Convidando pro banquete da existência?
Quantos guias lhe abriram o texto sagrado
E lhe apresentaram a beleza da festa de Deus?
Há quanto tempo você sabe sobre essa festa?
Coloque-se nos sapatos do Grupo A e me diga
Você tem virado as costas pra vida, pra o banquete de Deus?
Qual foi a última vez que você beijou sua esposa
Como quem festeja a dádiva da vida?
Qual foi a última vez que você abriu a portas do quarto de seu filho
No meio da noite, só pra ver ele respirar?
Como você fazia nos primeiros dias
Qual foi a última vez que você o ouviu, o ouviu de verdade?
É vida, agora, ao nosso redor acontecendo
Você tem celebrado esse banquete?
Qual a última vez que você andou pela cidade
E abraçando a dádiva da existência como um pobre
Que foi recebido no palácio da festa de Deus?
Talvez você diga
Eu gostaria de celebrar o banquete de Deus
A vida ao meu redor, o convite eterno
Mas comprei um terreno, meu trabalho me impede
Comprei cinco juntas de boi, a tecnologia me rouba de mim
Ou ainda você diga: Eu gostaria de me banquetear
Com as disciplinas espirituais da oração
Os sabores tão diversos da leitura das Escrituras
O culto público, a missão da igreja
Mas eu me casei, minha família toma muito o meu tempo
Se esses sapatos do Grupo A lhe servem, abandone-os agora mesmo
E decida celebrar o banquete de Deus, disponível por graça
A todos nós que um dia estávamos longe
Coloque-se agora nos sapatos do Grupo B
Estes lhe servem muito bem
Você é exatamente esse personagem na história geral
Recebeu o convite pela graça, mesmo estando longe
Sendo brasileiro, estrangeiro, distante de Abraão
Foi agregado no palácio por meio de tantos guias que lhe trouxeram até aqui
Ponha-se nesse lugar e agradeça a Deus por ter lhe chamado
Mesmo quando você não perguntava por Ele nem queria a Sua graça
Coloque-se agora nos sapatos dos guias, pelo amor de Deus
Saia desse lugar de menino mimado
Esperando que lhe sirvam o tempo todo
Vá pelas ruas da cidade e traga, comprometa-se com os outros
Pague a conta dos seus irmãos, carregue-os nos ombros
Ele quer a Sua casa cheia, sirva a Majestade
Com essa mesma diligência dos guias dessa parábola
Agora, agora coloque-se nos sapatos do Grupo C
Pense por um segundo o que é estar condenado por todos
Vivendo no isolamento, distante de qualquer um que lhe possa socorrer
Tenha misericórdia
Tenha misericórdia daqueles que você tem chamado de inimigos
Lembre-se que Deus fez as pazes com você e lhe chama de amigo
Você, que antes era inimigo de Deus, você agora é amigo
Chame assim também os que um dia você ofendeu
Odiou e condenou ao exílio
Traz de volta, busque-os à força, coloque-os na mesa
Essa é a escandalosa graça do Evangelho
É Cristo comendo peixe na praia com Seus amigos fujões e traidores
Coloque-se nesses sapatos
E por último
Tem um par de sapatos que você não deve colocar
Nem experimentar, não chegue nem perto deles
É os sapatos da Majestade
Você não tem o direito
Você não tem o direito
De dizer quem entra e quem sai dessa festa
Aqueles que o Pai chama de filho
Você recebe como irmão



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